Tomar decisões vitais exige pleno conhecimento

Tomar decisões vitais exige pleno conhecimento

A atribuição do Nobel da Física a três cientistas teóricos da cosmologia e da astrofísica (James Peebles, 84 anos; Michel Mayor, 77 anos; Didier Queloz, 53 anos) fez centrar a atenção mediática num discurso que tem vindo a ser recorrente nos meios científicos, sobretudo, nas últimas décadas. Uma das proezas consideráveis foi a obtida através do satélite Planck, que tornou possível desencriptar um dos grandes enigmas da física: a radiação cósmica de fundo; ou seja, a pré-história do universo na sua fase de arrefecimento quando a matéria se tornou transparente à luz, permitindo a emissão dos primeiros fotões e a formação das primeiras galáxias. Foi precisamente esta cartografia das flutuações térmicas que permitiu reajustar os parâmetros cosmológicos do universo. Mérito atribuído ao cosmólogo James Peebles que colaborou, durante anos, no estudo da evolução do universo primitivo. Segundo os teóricos da cosmologia o estudo cartográfico confirmou as suspeitas: só 5% do universo é conhecido (a matéria visível no modelo cosmológico standard), não há acesso aos restantes 95% (o modelo cosmológico alternativo com antimatéria) formado por 26% de matéria escura e 69% de energia escura. Confirmou-se a impossibilidade da «teoria do todo», que implica a conciliação entre a relatividade geral e as teorias da física quântica. Fala-se mesmo de se estar perante uma «crise ontológica da cosmologia»; embora os teóricos da física saibam que existe a totalidade, só têm acesso a 5%. Interrogam-se, por que motivo o universo começou com igual proporção de matéria e antimatéria e se desenvolveu assimetricamente, num universo inteiramente constituído por matéria. É aqui que se conjuga o Nobel atribuído também a Michel Mayor e Didier Queloz: nesta fração do universo, já foram descobertos mais de 4000 exoplanetas que, como o nome indica, estão fora do nosso sistema solar. Uma mundividência que escapa ao domínio da própria ciência. Para se resolverem estas questões é preciso entrar em outros campos do saber. Tudo isto tem sido veiculado pelos meios de comunicação social e prestigiadas revistas científicas.

Com esta introdução partimos do princípio que fundamentar a realidade apenas no desempenho científico e tecnológico corresponde a uma constrição do conhecimento a 5% da totalidade. A actual crise ontológica da cosmologia não é estranha à Igreja Católica, por isso mesmo, ela pretende ampliar um pouco mais o campo visual e de conhecimento face a esta grande questão de se pôr termo à vida humana, quando a própria vida se torna – para alguns – “indigna” de ser vivida. Referimo-nos, como é do conhecimento geral, às situações de doença prolongada e fase terminal, ou às limitações inerentes ao declínio do tempo-vida. Muitos profissionais de saúde, entre outros, apercebem-se de que o sofrimento humano é o terreno fértil para a conciliação entre ciência e fé. A pessoa frágil e doente é o elemento agregador que permite estabelecer a ligação. Isto, porque as fases de transição na doença e no declínio de vida devem ser acompanhadas por equipas multidisciplinares, que englobam profissionais de diferentes áreas. Trata-se de um trabalho global que abrange, normalmente, os doentes e os familiares. É um todo, que exige também uma atenção específica à dimensão espiritual. Há pouco mais de 2000 anos que os cristãos conhecem a grande alteração do tempo físico: «Completou-se o tempo…» (Mc 1, 15); «reconhecemos que é a última hora» (1 Jo 2, 18); «Nestes dias, que são os últimos» (Hb 1, 2); «Sabeis em que tempo vivemos… A noite adiantou-se e o dia está próximo» (Rm 13, 11-12). Também é possível encontrar nas Cartas de S. Paulo uma alusão clara sobre essa realidade maior que interage com o universo físico: «Por isso, não desfalecemos, e mesmo se, em nós, o homem exterior vai caminhando para a ruína, o homem interior renova-se, dia após dia» (2 Cor 4, 16). É neste enquadramento que a fé cristã fornece elementos concretos aos teóricos da física. Em resposta a uma das questões que lhe foi colocada, James Peebles, afirmou que é necessário determinar uma nova linha de investigação: «Não sabemos para onde olhar, o que significa que as belíssimas experiências para detetar matéria escura têm de decidir-se por uma direção, trabalhar muitos anos. É preciso uma ‘cabeça dura’ para o fazer, porque podem estar a olhar para o lado errado.» Afinal, não estarão todos a querer olhar no mesmo sentido? Para a contingência humana e a necessidade de ir mais além da finitude? Mas são precisas mediações. Porque é no sofrimento que a pessoa humana nos dá notícias da transfiguração da matéria, da existência de mais realidade, daí a necessidade de a pessoa – em fim de vida – conciliar o seu mundo psíquico com a dimensão espiritual. Assim o afirma S. Paulo: «Com efeito, a nossa momentânea e leve tribulação proporciona-nos um peso eterno de glória, além de toda e qualquer medida. Não olhamos para as coisas visíveis, mas para as invisíveis, porque as visíveis são passageiras, ao passo que as invisíveis são eternas.» (2 Cor 4, 17-18). Também não foi novidade, para os cristãos, a divulgação do Nobel da física, Michel Mayor, sobre a existência de milhares de exoplanetas, pois isso já tinha sido revelado há mais de 2000 anos: «Não se perturbe o vosso coração. (…) Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fosse, Eu vo-lo teria dito. Vou preparar um lugar para vós.» (Jo 14, 1-2). Esta afirmação de Jesus Cristo é muito mais esperançosa que a perspectiva do laureado Mayor quando refere que não há plano B para o planeta Terra: «Não podemos ir (para outros sistemas planetários). Temos de saber viver aqui e saber preservar o planeta que temos. Não há plano B.»

Perante a imensidão do desconhecido, impedir a maturação de uma vida que se prepara para o encontro decisivo com a transfiguração da realidade é desumano, porque implica a entrada no definitivo. Uma maturação que é feita nas diferentes fases do sofrimento, mesmo quando a dor física está medicamente colmatada. A teologia espiritual explica estas fases de transição através das noites “místicas”: a noite dos sentidos e a noite do espírito. Correspondem a estados de purificação. Ninguém se pode subtrair a esta etapa da vida humana, mesmo que decida pôr-lhe um termo. Por isso, quando os políticos, privilegiando a crença messiânica na ciência e nas tecnologias, se insurgem como decisores da vida humana, essas decisões são feitas com uma margem de erro de 95%: portanto, na ignorância, reduzida aos 5% da realidade conhecida!

Fontes: ionline.sapo.pt; expresso.pt; Science&Vie.

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Eugénia Tomaz
Eugénia Tomaz
Fisioterapeuta, visitadora de doentes, ministra extraordinária da comunhão.
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