Tocar a terra, o povo, a gente. Os primeiros olhares por aqui.

Tocar a terra, o povo, a gente. Os primeiros olhares por aqui.

David (Esquerda), Adela (Atrás de mim), Pedro, Tobiasz (Direita) e Eu – Awassa

Escrevo-vos desde Adis Abeba, após uma semana de viagem pela zona Sul da Etiópia com destino a conhecer algumas das missões que os Missionários Combonianos têm nessa zona – Awassa (de onde acabam de partir os Leigos Missionários Combonianos (LMC) da Polónia, que terminam a sua missão de 2 anos ali naquela cidade), Qillenso, Adola e Daaye. Todos estes lugares já têm histórias para contar da presença Comboniana. Histórias que podem já rezar desde há 50 anos. E descobrir estas missões fez-me ter um pouco (muito pouco) a consciência de que piso a terra de um povo maravilhoso, com o qual irei viver nos próximos 2 anos como LMC. Para aqui me destinou o Senhor e, como Maria, aceitei o seu convite, serena, dizendo Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim a Tua palavra! Comigo farão parte dois LMC’s – Pedro Nascimento, português do belo Alentejo (Ervedal), e David Aguilera, espanhol de Granada. E como comunidade queremos semear este grão de trigo, iniciando um novo projecto aqui na Etiópia, conscientes de que a missão nunca será nossa mas, sobretudo, de Deus. Também vossa: apesar de longe, é neste lugar que Deus espera por cada um de vós, pelo menos no abraço de uma oração que pode viajar desde bem longe (espero que desde os vossos corações). 

Eu, o Pedro e dois residentes locais que nos acompanharam na visita a uma cascata, em Daaye

Viajo na minha memória pela semana que passou. As paisagens que encheram os meus olhos durante uma semana contrastam com as que a minha vista agora alcança. No Sul a terra veste-se do vermelho da terra e do verde da vegetação acabada de nascer pelo início das chuvas; as casas vão-se semeando durante o percurso que fazemos, sempre aos molhos, nunca sós, apresentando uma configuração mais rudimentar; no Sul a arte mora na rua, nas casas cercadas por numerosos e afilados cactos, nascidos a preceito; o museu é ao ar livre, não se pagam bilhetes de entrada e as casas são apenas um lugar de abrigo, pois a vida habita lá fora: na rua, no mercado, locais de encontro, de conversa, de fazer jornal e saber as notícias (já que aqui, os meios de comunicação social são, para muitos, algo irreal); a rua, essa que ganha mérito constante a fotografia, e as pessoas, que sempre nos olham quando passamos, essas nem se falam! Já Adis Abeba é aquilo a que poderíamos chamar uma comum cidade europeia, não fosse a desordem que nela governa: entre o fumo da poluição que corta o azul do céu, o frenesim dos muitos carros que tornam uma aventura o simples atravessar a rua, as muitas pessoas que deambulam pelas ruas e que se atropelam. Pessoas: como é, por vezes, doloroso olhá-las; olhar os seus corpos estendidos no meio da berma, semeados, magros (anorécticos, diria), de roupas rasgadas, à espera da esmola. Entre cegos, amputados e mães… mães que muitas vezes trazem consigo o seu filho; mães desnutridas e filhos a crescer. Como dói olhar e dói ainda mais não saber o que fazer. 

Estou bem. Feliz pela missão que Deus nos entregou aos três. Estou a sentir tudo. A sentir o colo das pessoas que vou tocando no regaço de um aperto de mão e que sempre me dá tanta confiança. São boas pessoas, são um povo rico: rico de amor para dar, de bem acolher. Vou sentido também as suas palavras que muitas vezes não entendo, mas procuro responder com um sorriso, ou um olhar de ternura, ou usar as poucas palavras que já sei dizer em amárico (idioma oficial na Etiópia). Tem sido um tempo de observar, ouvir, tentar perceber. Vantagens também de eu mesma não ter um nível de inglês fluente (língua que usamos aqui em contexto profissional, mas que nem todos os residentes locais sabem) fluente que me permita falar muito (e muito menos amárico). Tiro partido disso e acabo por escutar mais, observar mais. É tempo disso!

Amarenha tenish, tenish (amárico pouco, pouco) – transmito sempre que me falam em amárico.

Kas ba kas (passo a passo) – dizem-me, reconfortando-me.

A calorosa recepção dos residentes locais, em Daaye

Pois para isso aqui estou, em Adis Abeba. Pelo menos nos próximos dois meses: para aprender o amárico que me permitirá a proximidade para com o povo. Depois o nosso destino, se Deus assim o quiser, será para o povo Gumuz, no oeste da Etiópia – os pobres dos mais pobres, local de primeira Evangelização, um povo marginalizado por estas bandas. 

Escrevo-vos à luz do dia que aqui parece ser mais curto sempre. A ausência da electricidade pede-nos que fechemos os nossos dias mais cedo. Escrevo-vos sem esta luminosa criação, cuja ausência tem tornado os dias curiosos. Entre o estudo do amárico, orações, caminhadas pela cidade, leituras sobre a Etiópia, os dias vão ganhando tempo e o tempo vai-nos dizendo que a ausência de electricidade é só um meio para nos reinventarmos. Na verdade, necessitamos dela. Necessitamos do wifi. Mas a sua ausência faz reinventar outras formas de comunicar. Comunicar com o pensamento. E quantas não são as vezes que dou por mim a pensar nos que deixei há cerca de 3 semanas em Portugal. Dou por mim a perder-me nas fotos dos que estão desse lado e que prosseguem as suas vidas. Estou a sentir tudo, inclusive a saudade. Ai saudade! Essa também me habita, como é claro (não fosse eu uma portuguesa… Daquelas saudosistas e nostálgicas)! Mas, como alguém me disse, a saudade é o amor que fica. Por isso, quero sempre que esta saudade faça parte comigo.

E é com esta saudade que vos deixo o meu abraço, apelando à vossa oração. Não só por mim, mas também pela missão, pela comunidade e por todo este povo que tem uma história que merece ser escrita e escutada, tal como tentarei fazer aqui nesta REDE que agora também chega à Etiópia, para que saibam as maravilhas que Deus semeia aqui.

Carolina Fiúza
Carolina Fiúza
A Carolina Fiúza é natural de Santa Eufémia, e é Leiga Missionária Comboniana. Neste momento, encontra-se em missão na Etiópia. Periodicamente vai-nos enviando as suas crónicas com relatos da sua experiência missionária.
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