Rosália e Gastão em entrevista: O Bom Pastor nunca se esquece das suas ovelhas (Parte II)

Rosália e Gastão em entrevista: O Bom Pastor nunca se esquece das suas ovelhas (Parte II)

Uma coisa é a disciplina da Igreja e outra são as pessoas da tua comunidade. É recorrente aquela ideia de que “os que vão à missa são os piores” e, por isso, temos a tendência de embarcar nessa sensação e nesse sentimento. A partir do momento em que se dá o divórcio e assumem o casamento por civil, sentiram alguma rejeição por parte das pessoas da vossa comunidade paroquial?

R: Não, nunca senti qualquer tipo de atrito ou rejeição por parte da comunidade paroquial onde vivo.  Essa situação deve-se, em parte, porque sempre respeitei as regras e as consequências dos meus atos. 

Curiosamente, verificou-se algumas vezes o contrário, ou seja, algumas pessoas impeliam-me a ir comungar e a participar ativamente. Elas não compreendiam o porquê de eu não poder comungar e não poder confessar-me. Era eu quem lhes  explicava a razão do meu comportamento, a minha maneira de sentir e até a minha fé. As regras existem e devem ser cumpridas e eu não era uma exceção.

Lembro-me que sentia que não o deveria aceitar porque, se não posso comungar nem confessar-me, como posso dar catequese? E como é que se explicava isso às crianças? Por tudo isso, não fazia sentido dar catequese e assim permaneci no meu canto discretamente ativa na Igreja.

A integração de forma ativa na nossa paróquia aconteceu de forma simples e natural. Acredito que foi consequência da nossa conduta discreta, mas correta.

G: Recorri muitos vezes à seguinte metáfora para melhor me explicar: “como posso eu conduzir um carro se ainda não tenho a carta de condução e ainda estou a ter aulas de código?”. 

As rasteiras ou os testes à fé e aos valores que defendo foram muitos ao longo dos anos. Com orgulho posso dizer que sempre respeitei as regras. E acredito que, se não o fizesse, a situação voltava-se contra mim, porque todos sabemos como é fácil, na sociedade, passar de bestial a besta. Fi-lo por mim e pela minha consciência, mas também pela relação que tenho com Deus.

O percurso de discernimento

O desafio do Bispo de Leiria-Fátima, D. António Marto, surge com o lançamento da “Nota Pastoral sobre os fiéis divorciados a viver em nova união – O Senhor está perto de quem tem o coração ferido” e aparece como uma oportunidade para vocês. O que pensaram quando viram essa proposta em forma de livro, pela primeira vez?

R: Antes de responder, quero fazer o seguinte enquadramento de modo a explicar que essa proposta não foi para mim uma completa surpresa. Eu sempre senti que essa abertura por parte da Igreja iria chegar um dia. Quando me casei com o Gastão, disse-lhe: “tu sabes que, a partir do momento em que casarmos por civil, ficaremos vedados aos sacramentos da Eucaristia e da Reconciliação… Mas, eu sinto que será apenas temporariamente: a Igreja está a mudar e sei que iremos comungar muitas vezes, tenho a certeza.”

A proposta lançada pelo senhor bispo D. António Marto abriu uma porta para os divorciados a viver em nova união e, veio muito mais cedo do que eu imaginava.

Rosália

Sou muito positiva, aliás, exageradamente positiva para alguns, mas consciente que as mudanças nem sempre são fáceis nem rápidas. Por isso, dizia ao Gastão que, lá para os meus 80 anos, teríamos boas-novas. Posso dizer com grande alegria, que ainda não tenho 40 anos e o meu desejo já se concretizou.

A proposta lançada pelo senhor bispo D. António Marto abriu uma porta para os divorciados a viver em nova união e, veio muito mais cedo do que eu imaginava. O “Bom Pastor” não descansou enquanto não conseguiu encontrar a solução possível e recuperar as suas ovelhas perdidas. 

Voltando à questão, recordo que foram os nossos compadres Catarina Moniz e Márcio Santos, padrinhos do nosso terceiro filho, o Salvador, que nos deram a conhecer esse documento. E reparem, no nome do nosso filho… para Deus, nada é por acaso. Eles conheciam bem o padre José Augusto Rodrigues e aconselharam-nos a ligar-lhe. 

Contudo, o verão chegou e, com ele, o período de férias, as festas, e o trabalho acumulado pós-férias não nos deixou margem para pararmos e pensarmos nesse desafio, que imaginávamos que seria exigente. E não estávamos enganados. 

No final de outubro voltámos a estar com os nossos compadres e eles confrontam-nos com a questão: “como é que ainda não ligaram?”. A reprimenda foi tal que, no dia seguinte, marcámos e ligámos, finalmente, para aquele que haveria de ser o nosso exigente e inspirador orientador.

O percurso foi feito com tempo, com paciência, com dedicação e empenho, mas, sobretudo, com muito discernimento.

G: Uma particularidade interessante, e porque acreditamos que nada é por acaso para Deus, a nota pastoral sobre os fiéis divorciados a viver em nova união foi publicada a 13 de maio de 2018. Nós concluímos o nosso processo e fizemos, inclusive, o retiro final para escrever o testemunho, precisamente a dia 13 de maio de 2019, ou seja, um ano depois. Será apenas coincidência ou um sinal discreto da presença de Deus?

Parece-me que demoraram muito tempo a reagir ao desafio lançado pelos vossos compadres. Porque levaram tanto tempo? Acharam que não era para vocês?

G: De facto, demorámos dois meses a reagir porque não o fazemos de cabeça quente. Gostamos de levar os assuntos a sério, mas também com naturalidade e sem correrias. O percurso foi feito com tempo, com paciência, com dedicação e empenho, mas, sobretudo, com muito discernimento. Uma vida com um filho tem muitos desafios… Agora, imaginem com quatro filhos. O tempo passou a voar e nem demos conta. Sinto que fomos amadurecendo e, no tempo certo, demos início a esse percurso. Confesso que no início, não fazíamos ideia para onde nos conduziria esse caminho.

Voltaríamos a fazer o processo de discernimento mesmo que o desfecho fosse não aceder aos sacramentos da Comunhão e da Reconciliação.

Gastão

Em novembro de 2018 tivemos a primeira sessão de discernimento e, de braços abertos, com disponibilidade física e mental, agarrámos a oportunidade que o “Bom Pastor” nos apresentou. De imediato, sentimos que era o que há tanto aspirávamos. Quanto mais caminhávamos, mais sentíamos que essa solução era dita e feita para nós, parecia um fato à medida. 

Curiosamente, em maio de 2019 celebrámos dez anos de união e este percurso convidou-nos a recordar a nossa caminhada, desde o seu início. Na minha opinião, qualquer casal recasado ou não, pode e deve, tal como nós, fazer o «Percurso Ela & Ele» e em seguida o «Percurso de Discernimento». Acredito mesmo que, por volta dos 10 anos ou mesmo 20 anos de casamento, esses dois percursos poderão alavancar o sucesso de qualquer relação. Nesses dois percursos, embora de formas distintas, os casais serão convidados a ter conversas sobre temas nunca abordados e poderão  ter o acompanhamento de um padre que os orienta.

Voltaríamos a fazer o processo de discernimento mesmo que o desfecho fosse não aceder aos sacramentos da Comunhão e da Reconciliação. O percurso de discernimento está tão bem pensado e estruturado que conseguiu ir ao cerne de muitas questões enraizadas e, por vezes, mal enraizadas nas nossas vidas. 

Reconheço que termos um padre orientador, exigente e motivador a acompanhar-nos de 15 em 15 dias durante duas horas e a incentivar-nos ao diálogo, a ajudar-nos a explorar várias perspectivas do nosso relacionamento, foi uma grande mais-valia.

R: Eu comparo o percurso a uma linha do tempo, com várias etapas, na qual somos desafiados a olhar com atenção para o antes, o durante e o depois… A certa altura, eu comparava o nosso percurso com as estantes repletas de dossiers que o nosso orientador tinha no seu  gabinete, porque sentia que a proposta que agarrámos de braços abertos, era um convite para reorganizar, se necessário e somente se fizesse sentido para nós, esses dossiers.

Permitiu-nos também perceber se estava algo desarrumado ou fora do sítio e convidou-nos arrumar. E, tal como uma planta, que recebe adubo orgânico, cresce e fortalece, com esse percurso a nossa união tornou-se ainda mais sólida, embora continue a não ser um Matrimónio. 

Cinco etapas de um longo caminho

Esses encontros e retiro final eram só para vocês ou havia mais casais? 

G: O percurso foi organizado em 5 etapas, sendo que cada etapa teve em média duas sessões. Essas sessões foram como que um retiro de aceitação e integração a dois, e apenas em casal. Ao longo do percurso, fizemos mais dois retiros distintos no tempo e na forma.

No primeiro retiro estiveram três casais que, como nós, estavam a terminar a primeira etapa do percurso de discernimento. Realizou-se no convento das irmãs clarissas de Monte Real, com o nosso orientador a acompanhar-nos. No segundo retiro estiveram três pessoas: nós e o nosso orientador, e realizou-se no Seminário, num dia muito especial, 13 de maio de 2019. 

Em cada capítulo do percurso de discernimento fomos convidados a fazer três momentos. O primeiro momento, era individual e consistia na leitura e reflexão de uma passagem bíblica em que cada um de nós escrevia o que pensava e sentia. No segundo momento, partilhávamos essas notas um com o outro. E no terceiro momento, estendíamos essa partilha ao nosso orientador, assim como as respetivas conclusões. Ou seja, havia uma consolidação muito grande em todos os pontos e em cada uma das cinco etapas.

O percurso foi organizado em 5 etapas, sendo que cada etapa teve em média duas sessões. Essas sessões foram como que um retiro de aceitação e integração a dois, e apenas em casal. Ao longo do percurso, fizemos mais dois retiros distintos no tempo e na forma.

O percurso foi muito individual e pensado, sobretudo, para o casal, porque a terceira pessoa, o padre orientador, acompanhava e dirigia a nossa caminhada. Ele não trazia as soluções, nem as respostas, mas dava-nos dicas para que nós próprios e em casal as encontrássemos.

R:  Começámos pelo início, ou seja, por falar do namoro e casamento do Gastão, seguindo-se o período do divórcio. Nos capítulos seguintes, falámos do novo namoro, e do nosso casamento por civil e de todos os seus frutos. Em cada capítulo era abordado um assunto diferente. O padre orientador ajudava-nos a refletir sobre as diversas passagens bíblicas que eram escolhidas a dedo para cada momento.

Recordo-me que numa das reuniões eu não contive as lágrimas, porque a estrutura do percurso convidava-nos a uma auto-avaliação muito profunda. E isso aconteceu quase no final do percurso, quando falámos do adultério. Confesso que, até esse dia, eu nunca tinha vestido essa farda. Comentei inclusive com o D. António Marto, aquando da entrega do testemunho final, porque o excerto do evangelho de S. Mateus [ Nota: Mt 19, 1-9, em que Jesus fala do adultério] foi, para mim, particularmente difícil de ler.

Numa das reuniões eu não contive as lágrimas, porque a estrutura do percurso convidava-nos a uma auto-avaliação muito profunda.

Rosália

Até essa data nunca tinha questionado nem refletido sobre a seguinte questão: “será que estou a ocupar um espaço que não é meu?” A verdade é que esse espaço já estava vago quando conheci o Gastão, mas refletir sobre isso e avaliar a perspetiva da Igreja, foi para mim um dos momentos mais dolorosos do percurso.

Tiveram o acompanhamento do bispo D. António Marto?

R: Diretamente não. O percurso foi acompanhado essencialmente pelo padre José Augusto que seguiu de forma exímia a Nota Pastoral. No final do percurso e encontrada a decisão final, reunimo-nos presencialmente com o senhor Bispo para nos apresentarmos e entregarmos em mão o nosso testemunho.

G: Na última fase do percurso foi-nos proposto viver duas semanas de forma particular e especial. Fomos convidados a viver uma semana onde iríamos sentir a vivência do “não”, para avaliarmos o que iríamos sentir se, no final do percurso, não tivéssemos acesso aos sacramentos da Eucaristia e da Reconciliação. Na semana seguinte fomos convidados a viver o “sim”, para avaliar como nos iríamos sentir se nos fosse concedido o acesso aos sacramentos. O objetivo do desafio era perceber onde nos iriamos sentir “mais confortáveis”: no SIM ou no NÃO. 

Na terceira semana realizou-se o retiro final e a pressão e os sentimentos estavam à flor da pele. Tínhamos entrado na reta final do percurso e estávamos prestes a descobrir qual era a vontade de Deus. Nesse retiro, rezámos e redigimos o testemunho com a decisão final que acreditamos ser a vontade de Deus que, depois, foi assinada por todos os intervenientes e entregue ao senhor Bispo.

No final do percurso e encontrada a decisão final, reunimo-nos presencialmente com o senhor Bispo para nos apresentarmos e entregarmos em mão o nosso testemunho.

Rosália

Ao longo deste percurso houve outras pessoas que vos foram acompanhando ou não?

R: Apenas os nossos compadres Márcio e Catarina foram conhecedores diretos da nossa caminhada. Anteriormente, também o pároco da nossa comunidade paroquial, o padre José Batista foi informado da nossa iniciativa. Não partilhámos com mais ninguém inicialmente.

Contudo, o nosso primeiro retiro realizou-se no convento de Monte Real e, desde então, de forma carinhosa e presente, as irmãs foram acompanhando de perto a nossa caminhada com orações e apoio através de mensagens. Essas mensagens de encorajamento trouxeram muito alento em determinados momentos. Aproveito para agradecer de coração as suas orações e carinho.

G: O percurso foi essencialmente nosso, isto é, foi mesmo uma caminhada a dois, porque apenas um número muito restrito de pessoas sabia o que estávamos a fazer. Não sabíamos qual iria ser o resultado final do percurso, visto que o discernimento era precisamente saber qual a vontade de Deus e não a nossa vontade. Como todas as hipóteses estavam em aberto, decidimos privar a nossa família e amigos de possíveis expectativas que nós próprios não sabíamos se eram concretizáveis. O desfecho era incerto.

A possibilidade de comungar

Existia uma possibilidade de vocês não acederem aos sacramentos da Eucaristia e da Reconciliação depois de todo o percurso?

R: Sim, existia uma hipótese de isso não acontecer. Na última etapa e de forma a confirmar através de um processo racional, fomos convidados a refletir sobre as três possibilidades seguintes, para sentir o que que se revelaria mais evidente: aceder aos Sacramentos; não aceder aos Sacramentos; ainda não estão reunidas condições, porque há passos a dar na nossa vida e por isso o discernimento deve continuar.

Na minha opinião, a variedade de possibilidades finais mostra como o percurso foi pensado e procurou colocar à disposição três portas abertas aos casais em nova união. A primeira porta dizia: sim, já estão reunidas todas as condições para o acesso aos Sacramentos da Eucaristia e da Reconciliação. A segunda porta dizia: não, não estão reunidas todas as condições para o acesso aos Sacramentos da Eucaristia e da Reconciliação, porque poderá desvendar-se por exemplo o enquadramento para a nulidade do matrimónio ou o casal poderá não estar de todo preparado e desistir por motivos diversos. E a terceira porta dizia: ainda não estão reunidas todas as condições para o acesso aos sacramentos da Eucaristia e da Reconciliação e, como tal, poderá ser necessário fazer algo para que isso mude.

G: Suponhamos que a dada altura ficava claro que no meu divórcio tinha havido violência ou eu tinha abandonado a esposa e o filho, deixando-os na miséria… Essa possibilidade de aceder aos Sacramentos ficava inviabilizada e tinha que, eventualmente, fazer um percurso de reparação.

A variedade de possibilidades finais mostra como o percurso foi pensado e procurou colocar à disposição três portas abertas aos casais em nova união.

Rosália

E, no vosso caso, essas três hipóteses eram apenas uma formalidade do percurso?

G: Nós queríamos sentir o que Deus queria para nós. Se já tivéssemos a decisão tomada, não estaríamos de coração aberto para ouvir o que Deus tinha para cada um de nós. Ao longo do percurso fomos ouvindo a voz do Pai misericordioso e bondoso sobre cada etapa da nossa vida, enquanto íamos percorrendo as várias etapas da proposta, o que nos fortaleceu muito como casal.

R: Recordo que a dada altura aconteceu uma situação que me fez refletir sobre qual seria a vontade de Deus. Como sou catequista, convidaram-me para ir a um encontro para catequistas no Seminário, em pleno tempo de quaresma e em pleno percurso discernimento. A pessoa que me deu boleia, antes de deixar-me em casa fez a seguinte questão: “Rosália, imagina que tu e o Gastão emigravam para outro local, onde ninguém vos conhecia; tu irias comungar?”. 

A Igreja não é um take-away, onde eu não concordo com algumas regras e concordo com outras regras, que me dão mais jeito e apenas cumpro as que me agradam.

Rosália

Eu fiz silêncio e pensei para mim: “não és tu que estás a perguntar, é Deus que me está a questionar”. E respondi: “aqui, no Algarve ou na China, Deus vê tudo, por isso eu quero, sim, comungar, mas apenas quando tiver a certeza de que o posso fazer; por isso, a minha resposta é não, eu não iria comungar…” 

Aliás, tive também quem me questionasse: “afinal, não comungas, porquê?”. Respondia: a Igreja não é um take-away, onde eu não concordo com algumas regras e concordo com outras regras, que me dão mais jeito e apenas cumpro as que me agradam. As regras são claras, e ou as cumpres ou não cumpres. A minha decisão sempre foi comungar apenas e só quando sentisse que estava em plena consciência para o fazer.

Um caminho agreste

Fazer esse percurso foi uma decisão fácil, no sentido de que as coisas correrem naturalmente ou criou constrangimentos ao nível de consciência?

R: Eu chorei muito ao longo de toda a caminhada… e se dizem que as lágrimas lavam a alma e nos deixam leves para um novo recomeço, eu estou mais do que pronta para esse recomeço.

Custou-me, sobretudo, por dois motivos: as saudades de dar catequese e a incapacidade de explicar a uma criança de oito anos, por que razão, não ia eu comungar, como faziam os pais das outras crianças.

Felizmente os dois foram ultrapassados. Quanto ao primeiro motivo, quero partilhar que foi ultrapassado com grande alegria há cerca de dois anos, quando me convidaram para ser catequista. A esse convite respondi de forma direta e clara que sim. Contudo, foi um “sim” com algum receio, não por mim, mas por parte da comunidade da minha paróquia. Eu gostava muito de dar catequese e sentia saudades de o fazer. Porém, durante oito longos anos aceitei, com o coração apertado, que não deveria fazê-lo, dada a minha situação. A dada altura senti que algo aconteceu, quando recebi um telefonema com esse convite especial. Lembro-me que sentia que não o deveria aceitar porque, se não posso comungar nem confessar-me, como posso dar catequese? E como é que se explicava isso às crianças? Por tudo isso, não fazia sentido dar catequese e assim permaneci no meu canto discretamente ativa na Igreja, indo à Missa, fomentando a fé cristã nos meus filhos com a catequese semanal e as orações diárias. Quando me fizeram o convite, perguntei se estavam conscientes da minha situação atual e o que isso implicava. Disseram-me que sim, e eu aceitei com uma condição: pedi para ser a ajudante da catequista principal. Pretendia, desse modo, evitar possíveis atritos com aqueles que não vissem com bons olhos a minha presença.

G: Durante o percurso fomo-nos ajudando um ao outro, porque algumas etapas foram mais exigentes que outras e mexeram com a nossa consciência sobre algumas situações passadas e até mesmo em algumas ocasiões, com a nossa fé. 

Algo que nos preocupava bastante era como explicar aos nossos filhos, que quando eles fossem comungar pela primeira vez, os pais não o poderiam fazer com eles.

Gastão

É preciso estar forte, querer, assumir e ter responsabilidade para fazer o percurso. Estes foram os fundamentos que nos deram força para cumpri-lo de forma empenhada e rigorosa durante seis trabalhosos meses. Ao longo do tempo que durou o nosso processo, tivemos quinzenalmente uma reunião que era antecedida por trabalho de casa e procurámos trazer sempre a matéria pronta, cumprindo com rigor os horários. Foi preciso muito esforço e dedicação. Ser amigo do orientador, não era uma mais-valia, porque o processo de discernimento tinha de ser feito até ao fim, sem ultrapassar degraus e, fundamentalmente, pela interiorização de cada um. Não se tratou de uma decisão que alguém de fora tomou, mas uma decisão apenas do casal e que surgiu após um trabalho muito imersivo.

Quando comungámos a primeira vez, fizemo-lo, essencialmente, porque já tínhamos todo o caminho feito. Tínhamos a vontade natural de o fazer e sabíamos que o podíamos fazer, pois sentimos verdadeiramente que estávamos preparados.

E por que é que esta caminhada durou seis meses? Não acham que vosso processo poderia ter sido feito em apenas num mês?

G: Não, para nós não faria sentido, tendo em conta as opções que fizemos, o discernimento que fizemos, e até a maneira como nos colocámos diante de Deus. Na nossa situação, não fazia sentido de outra maneira e por isso o tempo foi apenas o necessário, nem mais nem menos.

Algo que nos preocupava bastante era como explicar aos nossos filhos, que quando eles fossem comungar pela primeira vez, os pais não o poderiam fazer com eles. Coincidentemente no mesmo ano, o Santiago fez a preparação para a Primeira Comunhão e nós fizemos o percurso que nos abriu essa porta. Foi um ano muito gratificante.

R: O final dessa caminhada foi mais do que perfeito, porque me permitiu comungar pela primeira vez, na paróquia do Souto da Carpalhosa, onde vivo há cerca de dez anos, precisamente no dia em que o Santiago, de 8 anos, fez a Primeira Comunhão. Recordo-me que, há poucos dias, o Santiago dizia muito feliz: “mãe, já fiz a Primeira Comunhão, posso comungar na Missa do domingo!”; e eu dizia: “filho, e eu também!”. Lembro-me de ouvir vezes sem conta a mesma pergunta: “mãe, os pais dos outros meninos vão comungar, e tu não vais porquê?”. Eu dizia-lhe que não, porque estava a ter catequese como ele. E apesar da incerteza do desfecho do percurso, não conseguia encontrar outra justificação, pois é muito difícil explicar a situação a uma criança de oito anos. Mas, como não há coincidências, mais uma vez a mão de Deus esteve presente e permitiu-me viver esta felicidade a triplicar.

Querem deixar algum apelo?

R: Sim, queremos aproveitar para convidar os casais que se encontram na mesma situação que nós, para que se predisponham a aceder a este chamamento e fazer este percurso de discernimento. 

G: Acreditamos que vale a pena, não só pelo acesso aos sacramentos que pode ser uma possibilidade a atingir. E reforçamos que este percurso tem de facto várias etapas, todas elas bastante trabalhosas, mas as mais-valias são muito mais valiosas.

Paulo Adriano
Paulo Adriano
Diretor do Gabinete de Informação e Comunicação da Diocese de Leiria-Fátima.
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