O valor dos encontros

Hoje, penso naquela célebre frase de Antoine de Saint-Exupéry, no seu livro mais conhecido – O Principezinho – que diz «foi o tempo que dedicaste à tua rosa que a tornou especial». Faz-me pensar que o número de vezes que estamos com alguém também é relativo, que o valor dos encontros não está no tempo que passamos com alguém, mas na forma como lhe dedicamos esse tempo; são momentos em que o outro se faz um presente para nós e nós um presente para o outro. Quando quero ilustrar esta ideia, lembro-me sempre do encontro breve mas marcante que tive com a Joana [nome fictício] e, por isso, vou contar-vos como se conta uma história, como a história bonita que foi.

A Joana tinha paralisia cerebral e tinha sido internada no hospital aos 17 anos, no mesmo serviço onde eu estava a estagiar. Eu conheci-a no meu primeiro dia de estágio naquele serviço e foi logo uma alegria para mim tê-la ali por perto (apesar de ela se encontrar doente) por saber que ela vinha de uma instituição que eu conhecia, embora nunca nos tenhamos encontrado antes.

Mais ainda, a presença dela ali fazia-me recordar aquelas semanas de Férias em Fátima, nas quais sou voluntária, e o bem que esses encontros me faziam sentir desde que decidi fazer essa experiência. Por este motivo, a Joana foi aquela utente por quem eu queria ficar responsável no dia seguinte, quando começasse efetivamente a estagiar.

Durante o primeiro dia, estive algumas vezes com ela e percebi o quanto ela era bem disposta apesar de estar doente. A Joana não falava mas compreendia quando conversavam com ela e tantas eram as vezes em que se ria quando era provocada com alguma piada. E o sorriso dela…! Era luminoso! Era capaz de se encher todo o quarto só com o entusiasmo com que ela se ria! Era delicioso estar perto dela e ela também parecia gostar de ter companhia e de receber visitas.

Ainda durante esse dia, pude aperceber-me também daquilo que é o dia-a-dia habitual da vida em sociedade para alguém que tem uma deficiência, como a Joana: uma menina de 7 anos que tinha sido internada também, ia partilhar o mesmo quarto que ela e a mãe da menina (que a acompanhava), ao passar pela Joana, decide dizer à filha para passar rapidamente, tapando-lhe a cara para não ter de ver a Joana, transmitindo àquela criança o seu próprio medo, o seu próprio estigma, o seu próprio choque, e ficou uma cama vazia a separar as duas…

No dia seguinte, já tinha falado com a minha orientadora de estágio para ficar responsável pela Joana quando me disseram que ela já tinha tido alta. E durante todo o estágio não a vi mais… até ao último dia de estágio, dia em que ela voltou a dar entrada no mesmo serviço por estar doente novamente – vale a pena explicar que os internamentos hospitalares são uma realidade frequente, dependendo da deficiência da pessoa, associado a um sistema imunitário mais debilitado ou ao facto de co-existirem vários problemas em simultâneo.

Quando soube que era ela, fui vê-la, não me importava se ela se lembrava ou não de mim, mas queria vê-la sorrir novamente com aquele sorriso de luz, largo, radioso, quente! A Joana ficou para sempre conhecida como a rapariga que eu conehci no meu primeiro e último dia de estágio e com a qual não precisei de trocar palavras para me recordar dela com carinho, para não ter esquecido o nome nem o rosto dela!

Vários meses mais tarde, já de férias da faculdade, fui passar uns dias com a associação religiosa que dinamiza as semanas de Férias em Fátima (projeto Vem para o meio) e, num desses dias, surgiu a oportunidade de eu e outra amiga irmos animar a Eucaristia à instituição onde morava a Joana. Ao escolhermos os cânticos, o padre avisou-nos que logo a seguir à Eucaristia não podia ficar muito tempo porque tinha de celebrar um funeral nessa mesma instituição, noutro local. Com o decorrer da conversa, qual não foi o meu espanto… era o funeral da Joana.

Naquele momento fiquei sem reação, atónita… não sabia se me devia sentir triste, não sabia o que se tinha passado durante aqueles meses para ela ter acabado por falecer, mas falei com o padre e disse-lhe que gostaria de estar presente naquele momento. Para alguns talvez pareça mórbido, estranho, bizarro… mas o mais maravilhoso de tudo foi estar na casa mortuária da instituição, ali presente, perto do corpo com o qual a conheci… e o quão me senti grata por poder ali estar…! Lá, estavam poucas pessoas e eu não conhecia ninguém além do padre que era meu amigo; deviam ser os familiares mais próximos, pensei eu. E por instantes ocorreu-me “se alguém me vê aqui e não me conhece de lado nenhum será que me vão perguntar quem é que eu sou e o que estou aqui a fazer?”…

E naquele momento sosseguei ao formular uma resposta que nunca precisei de apresentar a ninguém: “sou só uma enfermeira que estive a estagiar no hospital quando a Joana lá esteve internada; só a conheci no primeiro e último dia do meu estágio, mas nunca mais me esqueci dela! Hoje, tive a graça de poder estar presente precisamente no dia da despedida dela para o céu e, para mim, é um privilégio poder dar graças pelo dom da vida de alguém que conheci durante tão pouco tempo mas de quem nunca me hei de esquecer.”

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Diana Costa e Lénea Coelho
Diana Costa e Lénea Coelho
Diana Costa: enfermeira de cuidados gerais (dianacosta.enf@gmail.com) Lénea Coelho: enfermeira especialista em saúde mental e psiquiatria (leneacoelho@gmail.com)
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