O ensino e o tempo

Com a atual exigência de produção científica a grande velocidade, para superar os rankings e imposições das entidades avaliadoras internas e externas, não posso deixar de reconhecer o trabalho e dedicação de uma grande maioria de professores/investigadores, que muitas vezes com prejuízo da sua vida pessoal são capazes de concretizar uma vasta produção científica, em curtos espaços de tempo. Caminho de mérito que deve ser reconhecido pelas instituições de ensino, sobretudo do ensino superior.

Contudo, não deixa de ser enriquecedora a diversidade no trabalho e de métodos de trabalhos é, aliás, estimulante que se reconheça que caminhos diferentes podem ser trilhados pelos professores/investigadores, em espaços e contextos fora deste registo veloz de continua criação intelectual.

Os caminhos profissionais são feitos de escolhas pessoais contextualizadas, pensadas e ponderadas a partir de interesses, da atividade que na prática desenvolvemos e que de modo consciente e também inconsciente é importante dar tempo para serem maturados.

Não me repugnam amadurecimentos científicos e intelectuais de progressão mais lenta, feitos de outros desafios, de outras propostas. Embora ditem as normas que, nestes casos, os resultados avaliativos não são tão benéficos para as instituições nem para estes profissionais. Contudo, teremos de nos questionar se não poderão também daí vir bons frutos.

O ensino, superior e não só, deve ser vivido e experimentado a partir da ideia de realização pedagógica e científica, com um sentido de dedicação à Educação, num contexto de aprendizagem assente também numa cidadania consciente e na concretização dos princípios mais elementares da dignidade da pessoa humana, consagrados em sede de Direitos Humanos.

Creio que pode e deve haver espaço para a diferença, para nos reinventarmos, saboreando a experiência e a reflexão a partir do erro que, na minha modesta opinião, deve ser feita com qualidade e tempo para que haja efetivas mudanças e é, aliás, saudável que assim seja. 

Importa, pois, que procuremos respeitar os professores e o serviço educativo que prestam e que apesar do cansaço, pela titânica luta contra o tempo que travam, confiemos neles. Da parte dos professores é fundamental que façam por ser acreditados e que demonstrem, na prática, que procuram servir o ensino com excelência máxima, própria da identidade e individualidade de cada um e na diversidade e complementaridade de ritmos, para isso importa primeiro que se respeitem mutuamente e que superem a tentação das comparações.

Parece-me que só poderemos ter um ensino estruturado e pensado para os sempre imprevisíveis desafios das sociedades do futuro, se aprendermos a ter tempo para degustarmos o trabalho que fazemos e vivermos contextos profissionais promotores de cooperação e diálogos.

Maria Côrtes Sales
Maria Côrtes Sales
Maria Côrtes Sales é colaboradora habitual da Revista Digital REDE.
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