João Pedro Tavares: “viver a liderança como serviço e como vocação”

João Pedro Tavares: “viver a liderança como serviço e como vocação”

No dia 29 de junho, a diocese de Leiria-Fátima oferece aos seus agentes da pastoral e todas as pessoas interessadas, uma Jornada sobre Dinâmicas de Liderança na Igreja. Esse dia de formação vai ser orientado por João Pedro Tavares, da Associação Cristã de Empresários e Gestores (ACEGE). A esse propósito e por ter uma vasta experiência nesta área formativa, quisemos fazer-lhe uma entrevista em que antecipa alguns dos assuntos a serem tratados nesse dia.

João Pedro Tavares é católico, casado e pai de quatro filhos. “Essas são as fundações da minha vida e o mais perene que existe”, explicou-nos, acrescentando que “tudo o resto são circunstâncias mais efémeras, cargos ou responsabilidades intermédias”. Profissionalmente, é licenciado em Engenharia e consultor de Gestão há 30 anos, numa multinacional ou a título pessoal.

É presidente da ACEGE – Associação Cristã de Empresários e Gestores e é nessa qualidade que se propõe a “ajudar outros, a começar por nós mesmos, a viver a liderança como serviço, com propósito, como missão, como vocação”. A Associação tem o apoio em todo o país de muitos sacerdotes e Bispos, como assistentes pastorais e no serviço aos grupos de reflexão sobre “como ser Cristo na Empresa”. “Tem, por isso, existido um trabalho muita proximidade e de ajuda mútua; afinal, fazemos todos parte da mesma Igreja”, justifica.

A missão da ACEGE é “Inspirar os líderes empresariais e viver o Amor e a Verdade como critério de gestão e com isso transformar a sociedade”.

Poderão ver mais informação
em www.acege.pt ou ainda em www.ver.pt

A formação sobre a Liderança e aspetos conexos (fala-se muito em coaching) parece que está na moda. Porque é que se sente esta necessidade de aprender a ser líder?

Antes de mais importa esclarecer o que cada um entende por liderança. De uma forma simples, a capacidade de mobilizar (-se e aos) outros, para um objetivo comum. Coaching é o apoio e a ajuda que se dá, em efeito de espelho, no sentido de ajudar alguém (ou uma equipa) a alcançar um objetivo.

Numa formação sobre liderança, a maior e principal descoberta tem a ver com o próprio, com a pessoa, antes de ser com os outros. De facto, uma vez satisfeitas as necessidades básicas de cada pessoa, ela própria, de alguma forma, está chamada a ser líder. Desde logo, a liderar-se a si mesma, nos seus desejos, mas sobretudo, no exercício da sua vontade, em liberdade, no sentido de viver a vida com um propósito, como missão, direcionando os seus recursos (talentos, capacidades, materiais) para um bem maior (a título de exemplo e face ao contexto em que nos encontramos). Liderar-se antes de liderar outros é o primeiro de muitos outros passos e aprende-se de uma única forma: exercendo, corrigindo, identificando oportunidades de melhoria, num ciclo que deve ser de desenvolvimento e crescimento, pessoal e de todos.

A liderança não é – não deve ser, ainda que muitas vezes o seja – um exercício de poder, mas um exercício de serviço.

As pessoas estarão mesmo dispostas a assumir a responsabilidade de ser líder?

Este é outro aspeto a destacar, em particular no contexto em que nos situamos. A liderança não é – não deve ser, ainda que muitas vezes o seja – um exercício de poder, mas um exercício de serviço. Quiçá dos mais responsabilizantes tipos de serviços que há, pois, exige risco, exposição, sair de mim mesmo, buscar o bem comum, etc. Deverá centrar-se mais no propósito, no(s) outro(s) do que em nós mesmos. No objetivo coletivo mais do que no pessoal.

Também aqui fazemos misturamos muitos contextos, entre o verdadeiro propósito de uma liderança e o ser chefe ou ter uma atribuição ou o exercício de um cargo (que pode em acumulação de muitos contextos, como sejam, o familiar, o social, o comunitário, o politico, o económico, o empresarial, o religioso, entre tantos outros).

Por detrás de um líder está sempre a pessoa: tem direitos, obrigações, responsabilidades.

Mas um líder tem sempre autoridade?

Um líder – e por detrás de um líder está sempre a pessoa – tem direitos, obrigações, responsabilidades. Pode invocar a sua autoridade a partir de múltiplas destas componentes. Pode decidir de forma coletiva ou individual, pode ser assertivo ou estar em modo de escuta, pode procurar ser mais consensual ou ser diretivo, pode fazer prevalecer o que é importante ou o que é mais urgente. Tem obrigação de partilhar um caminho, uma visão, uma direção, de envolver cada um no processo, procurar contributos amplos.

É um enorme desafio liderar e é importante que quem o exerce ou quem em determinada altura se submete à liderança de alguém o entenda de forma ampla e transparente para, com isso, criar maior confiança entre todos os intervenientes.

[A liderança] é também um exercício de liberdade a que estou chamado e que poderei exercer… ou não.

Sabemos que uma boa liderança faz a diferença, sobretudo na mobilização e motivação de recursos humanos e colaboradores. Essa capacidade é inata ou pode ser adquirida?

Sem dúvida que é fundamental e determinante uma boa liderança pois o potencial de algo conjunto, em coletivo, é enorme.

Não é uma capacidade absolutamente inata, ainda que possam existir características muito importantes de base que estimulam a pessoa à liderança. No entanto, é fundamental que seja uma capacidade exercida, treinada e que muitas vezes exigem superação.

Por outras palavras, quem quiser e estiver disposto a isso, pode ser líder?

Face ao que anteriormente referi, diria que sim, em diferentes estágios, quem quiser pode ser líder de alguma forma. O ser líder, neste sentido mais amplo, é independente dos cargos. Haverá cargos e responsabilidades distintas, em função da formação de cada um, das suas capacidades, das experiências, dos caminhos percorridos, das oportunidades com que nos confrontamos, das respostas que lhes damos. Enfim, uma enormidade de circunstâncias que nos vão moldando o caminho e que tornam as realidades muito distintas e muito únicas.

Atente-se, por exemplo, na parábola dos Talentos (em Mateus 25, 14-30) e que tão bem explica o que pretendo referir: a cada um dos servos (chamados de alguma forma a liderarem-se) o homem entregou talentos (a um 2, a outro 5, a outro 10). Todos eles, ao regressarem, fazendo bom uso dos seus talentos, lideraram esta desmultiplicação e devolveram em dobro o que tinham recebido. Exceto um, o que optou por não exercer a (sua) liderança, precisamente, o não-líder. Por tudo isto, é também um exercício de liberdade a que estou chamado e que poderei exercer… ou não.

O maior exemplo da liderança como serviço, o mais inspirador da história da humanidade, [é] o próprio Cristo que se faz presente em cada momento.

Porquê formação para a liderança na Igreja? Os líderes com responsabilidades pastorais não podem aprender “fora de portas”? É uma liderança diferente?

Os líderes, em qualquer organização, lideram pessoas. Na Igreja, em particular, poderão estar chamados – não todos, mas muitos – a um exercício de liderança, quiçá, mais exigente ainda, mais amplo, mais profundo, mais escrutinado, do que em qualquer outra circunstância (ou organização). De facto, nas organizações empresariais, por exemplo, poderemos fazer um exercício de liderança em sentido estrito, dos nossos colaboradores. No limite mínimo, queremos que estejam empenhados, que sejam competentes, que produzam o melhor possível.  Mas também aqui poderemos ir mais além, cuidando das suas realidades pessoais, atendendo às suas motivações, dificuldades, desafios, oportunidades. Ou ainda, conhecendo os seus contextos familiares e o meio em que se inserem. A amplitude é enorme, como se vê.

Carregamos motivações, capacidades talentos, disponibilidades, enfim, tanta coisa, que pode ser usada para esse Bem comum e maior que é a missão da Igreja, para dentro e para o mundo.

Concretamente, no âmbito eclesial…

No caso da Igreja, todos estes contextos existem, mas ainda existe a responsabilidade pessoal pelo cuidado (serviço) pastoral, o cuidar e apoiar ao desenvolvimento da Pessoa como um todo. Ainda para mais, tomando como exemplo o Líder dos líderes, o maior exemplo da liderança como serviço, o mais inspirador da história da humanidade, o próprio Cristo que se faz presente em cada momento.

Por isso, é limitado o nosso alcance ao trazer modelos de liderança para dentro de uma realidade que é tão ampla. Mas é importante pois cada um de nós, Igreja, no nosso contexto pessoal e único, no mundo, na sociedade, nas empresas, nas comunidades, carrega uma linguagem, uma visão, um entendimento. Carregamos motivações, capacidades talentos, disponibilidades, enfim, tanta coisa, que pode ser usada para esse Bem comum e maior que é a missão da Igreja, para dentro e para o mundo.

Por isso, é importante, para o bom uso dos talentos, para o bom envolvimento de cada, para o alcance de resultados que mobilizem, para o correto exercício de todas estas componentes que exista um tempo de paragem, de reflexão conjunta, de compromisso, de tomada de consciência, de visão do futuro, de leitura do caminho feito. É para tudo isto que nos propomos.



A Igreja tem falta de líderes ou líderes em excesso?

Se olharmos com a visão do mundo (que não abordei aqui), poderemos olhar e perguntarmo-nos se “a Igreja tem pessoas a mais a mandarem? A dar ordens?”. Não creio que a pergunta tenha sido feita nesse sentido e por isso, face a tudo o que anteriormente referi, diria que: A Igreja dispõe, em sentido lato (sacerdotes, consagrados, leigos, crianças, jovens, adultos, seniores), de pessoas – e não digo de recursos humanos pois isso levaria a uma outra ampla discussão – como nenhuma outra organização. Nesse sentido, tem ao seu alcance uma enorme pegada (para usar um termo que se tornou comum), de enorme impacto. Usemos bem todos os nossos recursos, de forma apropriada, para o cumprimento da missão que nos foi encomendada por Cristo “ide por todo o mundo…” que sendo uma missão inesgotável, nunca serão os recursos em excesso…

No entanto, se a liderança é um exercício de serviço, quem nos dera ter líderes em excesso, mas, sabemos que “são muitos os convidados, mas…” poucos o exercem.

[Da hierarquia da Igreja] existe uma enorme abertura e disponibilidade, um reconhecimento de como é importante uma visão “de fora” que possa refrescar esquemas ou modelos instituídos.

Existe um sentimento latente de que a hierarquia da Igreja rejeita lideranças fora do seu próprio círculo… É verdade? Há razões para isso?

A Igreja é de uma enorme amplitude. Nesse sentido, esta pergunta poderá recolher respostas diversas de toda a ordem, em função das circunstâncias e dos contextos que temos presentes.

O que me é dado ver, no contexto desta ação é de que existe uma enorme abertura e disponibilidade, um reconhecimento de como é importante uma visão “de fora” que possa refrescar esquemas ou modelos instituídos. Tenho de referir que não sendo a primeira formação deste género, em todas as circunstâncias assisto a pessoas disponíveis, humildes, abertas, com vontade de levar a cabo um caminho de missão, de vocação pessoal e coletiva. Tem sido momentos muito interpelantes e de transformação. Não que se apresente algo de novo ou de distinto, mas porque representa, sobretudo, um momento de paragem, de reflexão, de abertura, de partilha. E quando um coração humilde se dispõe desta forma, é seguro que a ação se manifesta em nós e nos outros.

Disse que a missão da ACEGE é “inspirar os lideres empresariais e viver o Amor e a Verdade como critérios de gestão e com isso transformar a sociedade. Acredita que isso é mesmo possível?

Não é seguramente uma missão fácil, mas tão pouco é impossível. É um caminho “aspiracional” e também “inspiracional” em que acreditamos com Fé e também com Esperança. A de viver com valores como o Amor e a Verdade, que não são económicos mas que têm impacto económico, bem como social, pessoal e ecológico. É abrir o leque para lá do obvio. É evoluir para algo que é um paradoxo mas dá amplitude ao estilo de gestão e, com isso, ao impacto nos outros, na sociedade, nas empresas. É o mais virtuoso de todos os modelos a que teremos de agregar a defesa da dignidade da pessoa, a promoção do Bem Comum, a Solidariedade, a Subsidiariedade e a protecção da Casa Comum, o nosso planeta. Estes são os princípios da Doutrina Social da Igreja a que chamamos, a Economia do Bem Comum.

Paulo Adriano
Paulo Adriano
Diretor do Gabinete de Informação e Comunicação da Diocese de Leiria-Fátima.
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