Espiritualidade de confiança em tempo de aflição e medo

Espiritualidade de confiança em tempo de aflição e medo

O alastrar da atual pandemia gera aflição e medo, que crescem de dia para dia à medida que as notícias nos chegam. Ouvimos insistentemente a recomendação a ficar em casa, a limitar os contactos sociais e a assumirmos vários comportamentos preventivos para evitar o contágio da doença. Por isso, até das missas comunitárias temos que fazer jejum. A apreensão e angústia tomam posse de muitos corações. Como viver com responsabilidade e confiança este tempo difícil?

Podem ajudar-nos alguns textos bíblicos. Quando fazia a sua caminhada pelo deserto depois de sair da opressão em que vivia no Egito, o povo judeu teve que enfrentar duras provações: perseguição, sede, fome, doença… Perante a sede, por exemplo, a situação era de tal modo aflitiva que o povo esqueceu por momentos tudo o que Deus fizera por ele e pergunta se o Senhor está ou não no meio dele (Ex 17,7). O próprio líder, Moisés, ao ver o sofrimento e ouvir as murmurações do povo, fica amargurado e sem saber o que fazer. Não tem outra saída que apresentar o caso a Deus e interceder pelo povo. Deus ouviu-o e manifestou-se, fazendo jorrar água de onde menos se esperava e todos puderam beber e matar a sede. Deus é quem tem as soluções últimas para as grandes aflições humanas. Não dispensa as nossas responsabilidades e até conta com elas, como fez dando instruções ao seu servo Moisés. A oração confiante a Deus é uma atitude e ação fundamentais no atual cenário mundial. Se lhe obedecemos, Ele surpreende-nos com as soluções que nos inspira ou aponta. É desta confiança em Deus que podemos viver neste tempo e agir responsavelmente.

Alguns fiéis católicos lamentam que se tenham cancelado as missas, quando mais precisamos delas. Efetivamente, é doloroso não se poder reunir as pessoas para a celebração da Eucaristia, para o encontro sacramental com Cristo vivo. Ele encontra-se, todavia, noutros espaços da nossa vida, se O procurarmos ou prestarmos atenção à sua surpreendente presença. Foi a experiência da mulher samaritana de que nos fala o evangelho de S. João (4, 5-42). A busca de água e a sede foi o motivo que levou ao inesperado encontro entre a mulher samaritana e Jesus. Ele revelou-se como o Messias de Deus e ensinou-lhe que, mais importante do que os lugares onde o fazemos, é a atitude e a ação de adorar a Deus “em espirito e verdade”, quer dizer com autenticidade, ardor, fé viva e a partir do coração. É este modo de nos relacionarmos com Deus que este tempo de jejum da Eucaristia nos pode proporcionar. Podemos adorar a Deus e fazer oração nas nossas próprias casas, como recomenda Jesus noutra ocasião, quando diz para entrarmos no quarto e ali rezarmos em segredo ao nosso Pai, prometendo que seremos recompensados (ver Mt 6,6). Esta pode constituir uma ocasião para descobrir a importância e o gosto pela oração pessoal e familiar, pois o Senhor também está, se manifesta, nos ajuda e inspira nas nossas próprias casas.Além do Pai nosso e de outras orações, para alimentar a nossa confiança em Deus e sustentar a nossa esperança no futuro próximo, ajuda-nos particularmente o salmo 91 (90), que é uma “meditação sobre as bases e as consequências da confiança em Deus”. Começa por afirmar que quem “habita sob a proteção do Altíssimo…, pode exclamar «Senhor, tu és o meu refúgio, o meu Deus, em quem confio»” e, depois, se promete que “Ele há de livrar-te do flagelo maligno”. E ainda: “Não temerás o terror da noite, nem da seta que voa de dia, nem da peste que alastra nas trevas, nem do flagelo que mata em pleno dia”.A oração que sustenta e fortalece a nossa confiança nestes tempos sombrios e de incertezas, não nos dispensa de assumirmos as precauções adequadas e de sermos responsáveis por nós e pelos outros. Pelo contrário, ela ajuda-nos a cumprirmos as nossas obrigações e impele-nos a ser solidários, a apoiar os outros nas suas necessidades e a corresponder fielmente às exigências das autoridades para se vencer o flagelo. O salmista é bem animador. Termina a sua meditação com a Palavra de Deus que responde a quem acredita e se dirige a Ele confiadamente: “Porque acreditou em mim, hei de salvá-lo; hei de defendê-lo, porque conheceu o meu nome. Quando me invocar, hei de responder-lhe; estarei a seu lado na tribulação, para o salvar e encher de honras. Hei de recompensá-lo com longos dias e mostrar-lhe a minha salvação.” (Sl 91, 14-16).

Queremos palavras mais animadoras do que estas, para vivermos com confiança, sem nos deixarmos abater, mas animando-nos e ajudando-nos uns aos outros na atual situação difícil? Neste sentido, é importante não nos deixarmos dominar pelo pânico, mas olharmos e pensarmos o que podemos fazer. Uma mensagem que recebi nestes dias sugere “colher o positivo nos tempos do coronavírus.” Depois, explica: “As medidas restritivas decretadas pelas autoridades estão a causar um fenómeno, que podemos classificar como algo positivo. As pessoas, estando em casa, redescobrem-se como família, interessando-se umas pelas outras. Além disso, está a criar-se uma corrente de solidariedade através das redes sociais: jovens oferecem-se para fazer as compras para as pessoas idosas, organizam-se coletas de fundos para ajudar hospitais, profissionais de saúde trabalham gratuitamente para fortalecer o atendimento às pessoas atingidas pela doença. São muitas as experiências de que tomo conhecimento através das redes sociais e que fazem renascer a esperança de um mundo melhor, de um mundo mais unido.” Por fim, conclui: “Vamos fazer renascer a esperança nos nossos corações através do «antivírus» chamado fraternidade.”

Saibamos então descobrir e pôr em prática o antivírus da fraternidade nestes tempos e sempre.

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Jorge Guarda, P.
Jorge Guarda, P.
Vigário Geral da diocese de Leiria-Fátima.
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