Ei-los que ficam! – A integração dos refugiados na Diocese de Leiria-Fátima

Ei-los que ficam! – A integração dos refugiados na Diocese de Leiria-Fátima

Há várias famílias de refugiados acolhidas na área da Diocese
de Leiria-Fátima, a maioria delas em instituições da Igreja Católica.
Como vieram, porque vieram e, sobretudo, como estão a viver?
Foi o que fomos saber na Caranguejeira, na Marinha Grande e
no Santuário de Fátima.

E descobrimos que o processo está a correr bastante bem, com uma integração gradual e bem estruturada na sociedade.

Esta foto é uma prova disso.

Luís Miguel Ferraz

 

 

 

 

 

 

É muito antigo, talvez de sempre, o problema de milhões de pessoas obrigadas a fugir de suas casas, das suas cidades e, até, dos seus países. A guerra, a perseguição religiosa, a fome, ou a simples falta de condições de sobrevivência são os motivos mais frequentes. Mas talvez nunca como hoje essa crise humanitária tenha sido tão grave e preocupante, sobretudo após a Primavera Árabe de 2011 que derrubou vários regimes totalitários no Médio Oriente e acalentou a revolta na Síria contra o governo de Bashar Al-Assad. Num caldeirão de lutas internas, onde se misturaram os interesses económicos e políticos das grandes potências mundiais – Europa incluída –, tudo se agravou com o aparecimento do grupo terrorista autoproclamado “Estado Islâmico”, maioritariamente presente nos territórios da Síria e do Iraque.

O problema ganhou maior “popularidade” em 2014, à medida que se tornaram “virais” as imagens das frágeis embarcações em que milhares de pessoas tentam atravessar o Mediterrâneo para chegar à Europa, muitas delas naufragando e morrendo no caminho. As que o conseguem, vão-se amontoando na Grécia e na Itália e procuram a todo o custo dirigir-se para Norte, superando as difíceis barreiras naturais e os ainda piores muros de arame farpado que alguns países foram construindo.

A Europa deparou-se com o problema de milhões de refugiados às suas portas e os não menos complicados enredos burocráticos continuam a barricar uma resposta viável. Enquanto se discutem números, os números não param de aumentar e os campos de refugiados continuam a ser imagem da indignidade para que muitos seres humanos são empurrados nesta sociedade dita desenvolvida. Poucos têm a sorte de “caber” nas estatísticas do acolhimento e menos ainda na sorte de uma verdadeira integração.

O Papa Francisco foi uma das primeiras vozes a fazer-se ouvir, à escala mundial, contra este flagelo e com o apelo ao acolhimento. Deu o exemplo, visitando locais marcados pela tragédia e levando consigo algumas das vítimas, e apelou a que cada paróquia, comunidade ou instituição católica acolhesse uma dessas famílias. A realidade está ainda a quilómetros disso, também porque é preciso ultrapassar barreiras políticas e, sobretudo, as do medo e do preconceito ideológico.

 

Ei-los que chegam!

Portugal está habituado ao movimento emigrante, celebrizado pelo verso “Ei-los que partem”, de Manuel Alegre. Mas também conhece a vaga inversa, ao receber refugiados da II Guerra Mundial ou com os fluxos dos países de leste no início deste século. Nesta crise atual, deu também uma resposta de abertura, através do programa de acolhimento estabelecido pelo Governo e com a criação da Plataforma de Apoio ao Refugiado (PAR) por várias dezenas de instituições dispostas a contribuir para uma solução, muitas delas ligadas à Igreja Católica. No encontro realizado no Seminário de Leiria, no passado mês de Dezembro, referiu-se Portugal como um dos bons exemplos, mas ainda longe do que poderia ser feito. E foi apontado o maior problema: a falta de quem se ofereça para acolher.

Ainda assim, algo está a ser feito e na área da Diocese de Leiria-Fátima estão algumas dessas pessoas. O Santuário de Fátima, a Província Portuguesa das Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo, as Irmãs Reparadoras de Fátima, as Irmãs Franciscanas Hospitaleiras da Imaculada Conceição, a Cáritas Paroquial da Caranguejeira e a Santa Casa da Misericórdia da Marinha Grande são algumas das entidades acolhedoras. Também a Câmara Municipal da Batalha recebeu duas famílias, a residir na paróquia de São Mamede.

2017-08-30 refugiados4No dia 18 de dezembro de 2015, chegou à Misericórdia da Marinha Grande um casal de iraquianos vindos da Grécia, na casa dos 30 anos de idade, ela grávida (na foto ao lado, já após o nascimento da filha). Tinham escolhido o nosso país por uma única referência: “era a terra de Cristiano Ronaldo”. O provedor, João Pereira, conta que “ao entrarem em casa, perante o acolhimento recebido e o ambiente da sua futura residência, choraram de alegria e, em inglês rudimentar, só agradeciam insistentemente”. Este responsável refere que “as sucessivas e chocantes imagens passadas na  televisão sobre as condições difíceis em que os refugiados atravessavam o mar e viviam nos campos da Grécia, rejeitados por alguns países europeus, despertou em nós um sentimento de forte solidariedade, a que um cristão não pode ser indiferente”. Por isso esta Misericórdia se disponibilizou para acolher e preparou um apartamento que tinha disponível no centro da cidade vidreira. E voltou a fazer o mesmo em Maio deste ano, com outra família iraquiana de 6 pessoas.

 

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Vinda do norte do Iraque, uma família de 7 pessoas, um casal com 4 rapazes e 1 menina, chegou ao Santuário de Fátima no dia 14 de julho de 2016 (foto acima). Apenas falavam árabe, mas a equipa que os foi receber ao aeroporto integrava uma religiosa que domina esta língua e foi fácil o primeiro contacto. “As primeiras palavras com o pai foram sobre o futebol”, tema que agrada também aos filhos, e, mais uma vez, veio Cristiano Ronaldo à baila, como sendo “melhor do que Messi”. Ao chegarem a Fátima e verem a habitação em que iriam ficar, agradeceram tudo o que estávamos a fazer por eles”, conta Joaquim Dias, um dos membros do grupo que os tem acompanhado. “Diante da calamidade da guerra e perseguições que obrigou milhões de pessoas a fugir dos seus países e a viver em campos onde falta quase tudo, o Santuário, em comunhão com o senhor Bispo, não podia deixar de ajudar estas famílias deslocadas a terem estabilidade e paz”, refere.

 

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Foram também “as notícias que víamos todos os dias na televisão que mostravam pessoas como nós a fugir para salvar a vida, mas pondo a vida em risco” que sensibilizou a Cáritas Paroquial da Caranguejeira. Isso e “o apelo do Papa Francisco para que os acolhêssemos”, conta a responsável do grupo, Fernanda Fernandes, lembrando que já fazia o mesmo com famílias locais e outras vindas de outras zonas do País. Assim, no passado dia 15 de Maio, chegou à comunidade uma família iraquiana de cinco pessoas que vivia há 18 meses num campo de refugiados da Grécia: o casal Ayoub e Chya, de 39 e 35 anos, e os três filhos Rawand, Raviar e Rabin com 14, 12 e 4 anos de idade (na foto acima, com Fernanda em fundo). “O nosso primeiro contacto foi no aeroporto e ficámos bem impressionados com a simpatia de toda a família”, conta, sublinhando a abertura e colaboração de outras pessoas e instituições locais para viabilizar este acolhimento.

 

Ei-los que estão!

Fernanda Fernandes refere frequentemente que o sucesso da operação dependeu muito da comunidade, não só a paróquia como a escola, a junta de freguesia e o comércio local, “para que todos pudessem colaborar no acolhimento desta família vinda de tão longe para um sítio relativamente pequeno e totalmente diferente da realidade que sempre conheceram”. Passou ainda pouco tempo, mas já realizam as suas tarefas mais básicas, como ir ao supermercado, estão inscritos no Centro de Saúde, na Segurança Social, nas Finanças e no Instituto de Emprego e já têm cartão de residência provisória em Portugal. “Ayoub já se encontra a trabalhar na área da carpintaria, pois era dono de uma na sua terra, e a Chya, que era costureira, também anda à procura de um trabalho”, conta a presidente da Cáritas local, acrescentando que “logo no início fizeram questão de cultivar algumas hortas no seu quintal e mostraram ser uma família trabalhadora, muito educada e que gosta de partilhar bolos e comidas com os vizinhos”. Também as crianças estão bem integradas na escola e participam no Clube Desportivo da Caranguejeira, “pois adoram jogar futebol”.

Por isso, “passados três meses, sentimos que a família está integrada na nossa comunidade, tendo uma rede de amizades que os apoia e com quem já criaram laços; sentimos que estão muito satisfeitos com a realidade que encontraram e com as possibilidades que têm ao seu dispor e que estão muito gratos pelo apoio, pois para eles o mais importante não é viver num país rico, mas um país onde exista paz e onde possam educar os seus filhos e usufruir de amizades sinceras”.

Também em Fátima a integração tem sido gradual e “relativamente fácil”. O Santuário preparou uma equipa para os ajudar e “quatro dias depois de chegarem começaram a aprender português, os dois filhos mais novos foram integrados num ATL, em setembro todas as crianças foram para a escola e o pai começou a trabalhar nos jardins do Santuário”. Joaquim Dias está consciente que “o percurso é um pouco longo, dada a história que carregam de quase três anos em fuga com sofrimentos, medos, perda dos seus bens, ficar separados dos seus familiares e amigos, etc., mas já se sentem bem, fazem já compras sozinhos e têm alguma autonomia”.

Na Marinha Grande a realidade é semelhante, com o acompanhamento inicial às consultas médicas, a adaptação de hábitos alimentares, a aprendizagem da língua numa turma organizada na escola secundária, e “em março estavam ambos empregados, ele numa fábrica de plásticos e moldes e ela num dos lares da Misericórdia”, conta o provedor. “Estão encantados com o trabalho, onde gostam muito deles e fizeram amigos e já dizem que não querem regressar ao Iraque”, acrescenta João Pereira, comentando que lhe chamam “padrinho” e tratam a direção da Misericórdia como “família”. O marido do segundo casal vai também começar a trabalhar entretanto.

 

Aceitação mútua

O processo só pode correr bem se houver aceitação de ambas as partes, e é isso que acontece em Fátima. “Não se registou qualquer queixa por parte das lojas onde fazem compras, das autoridades locais, dos professores ou colegas de escola”, conta Joaquim Dias. Também na Caranguejeira, a comunidade tem acompanhado e “todos se interessam pelo bem-estar desta família, procurando fazer o que está ao seu alcance para colaborar na sua integração”, refere Fernanda Fernandes. E o mesmo se passa na Marinha Grande, diz João Pereira, onde “a comunidade os acompanha com interesse e com total respeito”.

Sendo todos eles muçulmanos, poderia temer-se algum tipo de atrito, mas nem isso. “O Santuário sempre respeitou e respeita a liberdade de cada pessoa e não houve qualquer pressão do foro religioso, nem pedido por parte da família”, refere Joaquim Dias, comentando que “são muito respeitadores do ambiente que se vive em Fátima e até já ouvimos elogios”.

Também com “total liberdade”, a família iraquiana que reside na Marinha Grande admitiu que chegou a frequentar a Missa no seu país e que “pondera levar a filha recém-nascida à igreja, quando for maiorzinha”.

E agora, a curiosidade da foto que ilustra o topo deste artigo: um dos homens que leva o andor de São José na procissão da festa de Nossa Senhora da Conceição é Ayoub, que “não professa qualquer religião, mas tem participado nalgumas celebrações religiosas e colaborado com alguns eventos da paróquia”, conta Fernanda Fernandes. A esposa Chya assume-se como muçulmana, “mas tanto ela como a família fazem questão de se vestir como nós”.

Do ponto de vista económico, cada uma destas famílias recebe um valor mensal da União Europeia para as despesas como renda de casa, eletricidade, água, etc. Sendo insuficiente, cada uma das instituições de acolhimento ajuda a suprir outras necessidades, tendo em vista a progressiva autonomia da família, à medida que vão tendo trabalho e rendimento próprio. Esse será também um passo fundamental para a integração plena e para que se possa dizer “ei-los que ficam”.

 

Testemunhos de quem acolhe

Tem sido uma experiência muito enriquecedora, pois, apesar de algumas dificuldades, nomeadamente as burocracias necessárias para a legalização destas pessoas e a comunicação com elas, as alegrias superam tudo isso. Tem sido extremamente positivo poder participar no acolhimento de uma família que passou por tantas dificuldades e que agora pode construir uma nova vida sem medo de perseguições ou guerra. Para ver as pessoas felizes, vale a pena todo o esforço. Esta família pretende ficar na Caranguejeira após o término do protocolo e, obviamente, contará com o apoio do grupo, como qualquer outra pessoa. Enche-me de satisfação e sentimento de dever cumprido.

Fernanda Fernandes

 

É uma experiência muito boa, que me enche de satisfação. Acolher alguém que vem da guerra, que  refaz a sua vida, começa a sorrir e diz que nós somos a sua família, enche-nos a alma. É bom amar alguém sem esperar nada em troca. Curiosamente, o marido do segundo casal nem queria vir para a nossa casa, pois alguém lhe falou mal das Misericórdias no campo de refugiados. Ainda estamos a tentar descobrir quem terá sido. Foi o testemunho do primeiro casal que o levou a aceitar e, mais tarde, pediu desculpa por essa desconfiança inicial e confessa-se muito feliz.

João Pereira

 

Sem dúvida, vale a pena este trabalho de poder fazer o bem àqueles que precisam. Não há maior tesouro do que os sorrisos de cinco crianças ou o abraço que recebo todas as vezes que os visito. Há sempre desafios da língua e de conseguir que se tornem mais autónomos, se integrem totalmente e sejam felizes, mas não há receios. As experiências que a equipa de acolhimento tem vivido são variadíssimas, como as conversas sobre o futebol, pois todos eles já se dividiram em preferência por Benfica, Sporting e Porto e debatem o nosso campeonato de forma saudável. Ou o acolhimento que nos dão com um chá da sua horta e uns bolinhos tradicionais muito saborosos. São pessoas gratas e, onde quer que nos encontremos, vêm cumprimentar-nos.

Joaquim Dias

 

Testemunho de quem é acolhido

Estamos muito satisfeitos por estar aqui na Caranguejeira. Quando estávamos no campo de refugiados na Grécia, todos queriam ir para a Alemanha, por ser um país rico, mas nós preferimos um país pequeno e calmo como Portugal. Agora os nossos amigos na Alemanha invejam-nos, porque lá é tudo caro e as pessoas são frias. Aqui todos nos receberam de braços abertos e nos ajudam com tudo que podem. Já fizemos muitos amigos e já tenho um trabalho. Os meus filhos estão na escola e também já fizeram amigos e estão felizes. Vamos ficar aqui e construir uma nova vida. Estamos muito gratos a todos por tudo o que têm feito por nós e principalmente à Cáritas Paroquial da Caranguejeira.

Ayoub

 

Estou muito grato ao Santuário por ter acolhido a minha família e me ter dado condições para poder viver aqui com ela em paz e com qualidade, até pelo meu emprego. O Santuário também faz parte da minha família e estou muito, muito obrigado ao Santuário e a Portugal.

Pai da família de Fátima

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Luís Miguel Ferraz
Luís Miguel Ferraz
Paróquia da Batalha. Comunidade Cristã da Golpilheira. jornaldagolpilheira.pt
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