É de acreditar nas profecias das redes sociais?

É de acreditar nas profecias das redes sociais?

Desde que surgiu a atual pandemia, correm nas redes sociais mensagens alarmantes. Tentam fazer leituras apocalíticas e catastróficas de tom religioso. Até Fátima e a revelação da terceira parte do segredo confiado por Nossa Senhora são envolvidas nessas ditas profecias. Curiosamente, algumas pessoas mesmo católicas, ávidas talvez de novas ideias e interpretações dos acontecimentos assustadores que se sucedem no mundo, parecem dar mais crédito a esses escritos do que às Sagradas Escrituras e aos ensinamentos da Igreja através dos seus pastores. Por isso, ficam perturbados e amedrontados e angustiados.

Alguém, nestes dias, me fez a pergunta: “Serão credíveis todas estas profecias que estão a passar na internet? Ando um pouco assustada, quero acreditar, mas tenho medo de estar a alinhar em falsos alarmes”. A minha resposta foi simples e direta: “Não acredite nelas… São obra de mentes doentias ou fanáticas. Acredite somente nas palavras de Jesus no Evangelho. E fique em paz”. A pessoa agradeceu, dizendo que já estava a entrar em paranoia, pois as mensagens pareciam ao mesmo tempo coisa de seitas, mas tudo misturado com o Papa e aparições de Nossa Senhora… Estava tudo muito confuso. Com a minha palavra ficou mais calma…

Como reagir perante as profecias correntes?

Em ordem a fazer uma reta avaliação e não se assustar nem angustiar, perante este ou outro tipo de profecias, importa fazer o seguinte:

1. Ler com atenção e espírito crítico o que é escrito ou dito; 2. Perguntar de quem vem, ou qual a sua origem; 3. Tentar perceber qual a intenção que pretende atingir (assustar, iludir, impor certas visões religiosas…); 4. Examinar o seu conteúdo e confrontar se ele é coerente com o que é conhecido da Bíblia, do credo cristão, dos ensinamentos dos Pastores da Igreja, da mensagem de Fátima…; 5. Concluir se é uma mensagem verdadeira ou falsa. Neste esforço, é preciso nunca esquecer o ditado: “Nem tudo o que luz é oiro”. Ou seja, nem tudo o que parece religioso o é verdadeiramente. 

Sobre Fátima e a sua mensagem, tenhamos presente que Nossa Senhora veio comunicar graça, paz e misericórdia que vêm de Deus e Ele quer oferecer estes dons a todos os homens. Apelou à conversão, pediu que não se ofendesse mais a Deus, advertiu para as consequências das más ações humanas, indicou a oração, o sacrifício, os atos de reparação para as ofensas a Deus, mas não quis amedrontar.  Nem deixou a sua mensagem para que alguém pegue nela e a agite como se de uma espada se tratasse para ameaçar e castigar sem dó nem piedade quem não crê ou faz o mal. A Virgem Maria disse à Lúcia que não tivesse medo, pois o seu Coração imaculado seria o refúgio e o caminho que a conduziria a Deus. Ela mantém seguramente a mesma atitude e palavras maternas para todos os seus fiéis. Indica-lhes o caminho certo, anima-os e conforta-os nas situações adversas da vida. Não nos deixemos pois enganar por quem nos desvia da Mãe do Céu, de Jesus Cristo, seu filho, ou de Deus Pai.

Sempre houve e continuam a aparecer pessoas que têm a pretensão de serem porta-vozes de Deus, de Jesus Cristo ou de Nossa Senhora, ou serem seus intérpretes autorizados, invocando para isso uma qualquer visão mística, que não passa de uma fantasia da sua mente perturbada e impostora.

Identificar e não acreditar em falsos profetas

Já Jesus alertou para a vinda de falsos profetas, gente que até faria “grandes milagres e prodígios” e assim haveria de enganar a muitos e desencaminhar até alguns fiéis. E advertiu-os: “não acrediteis” (cf Mt 24, 11.24-26). O mesmo é dizer: estai atentos e não vos deixeis enganar.

Um dos seus discípulos, São João, recomendou aos fiéis para não darem crédito a qualquer pessoa, mas examinarem se o que ela diz vem realmente de Deus, pois, adverte, “muitos falsos profetas apareceram no mundo”. O critério, segundo ele, para discernir a autenticidade divina das mensagens é se elas aproximam de Jesus Cristo e levam à confissão da verdadeira fé cristã (cf 1 Jo 4,1-3). As verdadeiras profecias comunicam a palavra de Deus em relação com as circunstâncias do mundo e da vida das pessoas e fazem crescer na fé.

Assim, como ensina São Paulo, quem é portador da palavra de Deus “fala aos homens para os edificar, exortar e consolar” (cf 1 Cor 14,3) e não para os encher de medo nem os amargurar com anúncios de cataclismos, castigos e sofrimentos. A verdadeira palavra de Deus ensina, esclarece e fortalece na vivência da fé. Mais, exorta, procura mover a vontade dois fiéis para viverem segundo Deus e fazerem o bem aos outros e a si próprios. E, ainda, anima, dá conforto, encoraja para ser valente e agir em conformidade com quanto Deus nos ensina, seguindo os caminhos que ele nos indica.

Então, perante as profecias das redes sociais, é preciso não se deixar levar por uma credulidade ingénua, mas orientar-se pela sabedoria da verdadeira fé cristã. “O ingénuo dá crédito a tudo o que se diz, mas o prudente reflete sobre os seus passos”, diz o livro dos Provérbios (14,15). E acrescenta: “O coração do sábio procura o conhecimento; a boca dos insensatos apascenta-se de loucura” (15,14). É preciso, portanto, usar bem a própria inteligência para avaliar se o que se escreve é verdadeiro ou falso. Em todo o caso, nunca se deve deixar entrar o medo no próprio coração. A fé cristã infunde confiança e esperança, e não terror.

Termino com mais uma sentença dos Provérbios: “O sábio teme o mal e desvia-se dele; o insensato avança com arrogância e julga-se seguro” (14,16). Muitos dos que divulgam falsas profecias parecem encaixar bem nesta categoria dos insensatos, segundo a Bíblia.

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Jorge Guarda, P.
Jorge Guarda, P.
Vigário Geral da diocese de Leiria-Fátima.
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