D. António Marto: “o confinamento deve ser vivido como um ato de amor”

D. António Marto: “o confinamento deve ser vivido como um ato de amor”

Homilia do cardeal D. António Marto na missa celebrada no casa episcopal no dia 22 de março de 2020 e transmitida na internet.

A luz da fé ajuda-nos a ver o lado positivo das noites escuras, porque nos diz que também nelas há estrelas de referência. Ajuda-nos, portanto, também a ver, a ler e a compreender os sinais dos tempos, neste momento presente que estamos a viver. Estávamos a viver com uma confiança muito grande no poder cientifico-técnico, no poder económico-financeiro, pensando que estaríamos porventura imunes a qualquer epidemia ou, se viesse, se encontraria uma solução rápida para tudo.

Mas, inesperadamente, um vírus invisível, imprevisível, silencioso, que contagia tudo e é capaz de contagiar todos, põe o mundo a vacilar. E todas as nossas agendas, todas as nossas programações parece que caem todas como um castelo de cartas… São precisos planos de contingência, planos de emergência, para fazer face a este flagelo, que se contagia de modo tão rápido. É uma situação dolorosa, dramática mesmo, que nos convida a refletir sobre a nossa vida e, em primeiro lugar, a ir ao essencial, que muitas vezes esquecemos quando a vida corre bem. Ir ao essencial da nossa condição humana. Sim… porque isto põe a nu e revela a vulnerabilidade, a fragilidade da nossa condição humana. Às vezes, parecemos tão tremendamente fortes e somos tão tremendamente frágeis, vulneráveis. Leva-nos a pensar sobre o sentido da vida, sobre a possibilidade e a realidade da morte, da nossa própria morte e da morte, porventura, dos nossos familiares e daqueles que nos são queridos. Leva-nos a pensar sobre os nossos hábitos, o nosso próprio estilo de vida, a escala de valores que orienta a nossa própria vida. Tudo isto exige uma reflexão interior, espiritual e também a abertura do nosso coração a Deus, porventura um Deus esquecido ou até marginalizado. Uma abertura, não por medo de um castigo que viesse de Deus, como alguns dizem… Dizer isto, atribuindo a Deus a epidemia como um castigo, seria uma blasfémia! Um cristão não pode dizer isso… O Senhor veio ao mundo para salvar o mundo, não para o condenar. E, por conseguinte, somos chamados a voltar o nosso coração para Deus, para receber dele e implorar dele a luz, a força, a sabedoria, a coragem para vencer este flagelo terrível, mas assumindo também as nossas próprias responsabilidades, não atribuindo a Deus aquilo que é responsabilidade humana também.

Perguntemo-nos se temos tempo, se damos lugar no nosso coração e na nossa vida a Deus… Esta nossa vulnerabilidade, esta nossa fragilidade faz-nos sentir muito unidos na nossa humanidade, porque o vírus ultrapassa todas as barreiras, passa através de todas as barreiras geográficas, mas também das condições sociais, económicas, hierárquicas: ricos e pobres, grandes e pequenos, letrados ou iletrados, ninguém está imune. Sentimo-nos unidos e pertencentes a uma humanidade comum e por isso unidos na fragilidade, mas unidos também mais na fraternidade e na solidariedade. E damos conta de que a nossa liberdade só pode ser exercida na responsabilidade e na solidariedade, que somos interdependentes e solidários uns dos outros e por isso nos salvamos todos juntos ou nos afundamos todos juntos. As medidas de prevenção, o confinamento à nossa própria casa, tudo isso deve ser vivido, não como uma imposição, mas como um ato de amor para com os outros, um ato de solidariedade. Respeitar os outros, para não os contagiar; precaver-me a mim mesmo para não me contagiar também… Tudo isto leva-nos também à redescoberta do valor da família… Às vezes, não temos tempo, estamos sempre ocupados, e agora somos chamados a dar um valor verdadeiro aos laços familiares, que nos suportam como sempre. É-nos exigida criatividade para uma maior comunicação, um maior diálogo entre todos e entre gerações. Leva-nos a descobrir também, à luz da fé, a nossa família como uma pequena Igreja doméstica: o Senhor está presente na família, na nossa casa, no amor dos esposos, está presente no amor dos pais para com os filhos e dos filhos para com os pais, está presente no amor familiar. Não podemos esquecer isto! A família deve ser um espaço de acolhimento e de diálogo com o Senhor.

D. António Marto
Bispo de Leiria-Fátima

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