Cultura do “E” ou do “OU”?

Cultura do “E” ou do “OU”?

Na corrida do dia-a-dia, debaixo da tirania da urgência que prevalece sobre o que é, de facto, importante, temos vindo crescentemente a adotar modelos económicos e sociais que não são inclusivos, mas acabam por ser exclusivos, tomando opções que acabam por “deitar fora” áreas ou aspetos importantes da nossa vida. Isso é visível na forma como lideramos, como educamos, como lidamos com os problemas. É a decisão fácil e rápida, é a cultura que descarta sempre algo, é a falta de atenção ao todo, pela prevalência da parte. Assim, desde cedo temos de optar pela Família OU pela carreira. Pela vida pessoal OU pela profissional. Nas empresas, incompatibilizamos Pessoas com Resultados e acabamos por optar por uma em detrimento da outra. É uma miopia sobre que importa refletir. Será possível uma cultura do “E”? da compatibilização, da “integralidade” da pessoa, do ser, do corpo, não deitando nada fora mas criando maiores harmonias, maior integração, maior inclusão? Não optemos pelo rápido “OU” mas meditemos na plenitude do “E”. E comecemos por nós mesmos, pelo nosso trabalho e responsabilidades, por aqueles que lideramos. Cria maior tensão, é verdade. Se calhar complica-nos o esquema montado do “OU”, mas é mais pleno, cria maior valor, gera mais felicidade.

O estudo recente do INE, sobre “conciliação da vida profissional com a vida familiar”, traz-nos alguns dados preocupantes que mostram a enorme dificuldade que as empresas ainda têm em implementar boas-práticas e que gritam por uma alteração de cultura e de políticas em que se valorize e defenda o cuidar e a assistência aos que nos são mais próximos, em que a empresa seja reconhecida como local de trabalho mas também de desenvolvimento integral de cada um, onde o trabalho não despreze as responsabilidades familiares e pessoais de cada um.

Desde 2011, que decresce em Portugal o índice de bem-estar no indicador “Balanço vida-trabalho” (INE), cresce o número daqueles que trabalham mais de 50h por semana, cresce o número daqueles que recebem o salário mínimo, na ordem das 700 mil pessoas; a taxa de divórcios está perto dos 70%.

A incompatibilidade dos horários laborais e escolares, a falta de políticas empresariais, as pressões quotidianas, a ausência de apoio por parte de colegas e superiores, mas, não menos importante, o próprio modo como cada um de nós gere o seu tempo, contribuem negativamente para a conciliação desejada e acabam por enfraquecer a família.

Uma situação que originou o não crescimento demográfico, levando a uma perda de 251.371 portugueses desde 2012 em Portugal, e só na zona Centro menos 84.823 (dados do I.N.E – 2018) e tornando Portugal o 6º país mais envelhecido do mundo.

Uma situação dramática que, no entanto, parece estar a ser alterada pelas novas gerações, que perante uma decisão de emprego já não consideram a estabilidade de carreira como o fator principal, mas 51% destacam o equilíbrio entre a vida pessoal e profissional como base da decisão do seu trajeto profissional (Randstad Employer Brand Research 2018).

É urgente a implementação dum contexto de trabalho saudável para todos, mais equilibrado e feliz, substituindo modelos obsoletos, que são negativos para as pessoas, as organizações e as famílias.

A empresa que cresce em comprometimento dos colaboradores, cresce em produtividade, com boas práticas flexíveis às necessidades dos colaboradores. Só assim as empresas irão conseguir reter os seus talentos.

Hoje, somos desafiados a desenvolver uma cultura mais plena e inclusiva e compete-nos apoiar iniciativas como a da ACEGE , que já está a fazer caminho neste campo, com modelos socialmente inovadores, como a nova certificação das Empresas Familiarmente Responsáveis (EFR), que favorece uma nova cultura de trabalho, baseada na flexibilidade, no respeito e no compromisso mútuos, desenvolvendo uma harmonia entre o espaço e tempo laboral, pessoal e familiar.

Uma tarefa imensa, mas que deve começar já hoje com um pequeno gesto pessoal de mudança de atitude e compromisso, por exemplo: não telefonando, ou enviando emails a fornecedores ou colaboradores fora do horário laboral, deixando o telemóvel fora do ambiente familiar e da casa.

Serão pequenos, grandes gestos na defesa da Família E da produtividade do Trabalho!

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Teresa Lago
Teresa Lago
Membro da Comissão Diocesana Justiça e Paz de Coimbra.
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