Convívio Fraterno: o Zaqueu na pele de 13 jovens

Convívio Fraterno: o Zaqueu na pele de 13 jovens

Fotografia de Grupo (Foto: Cristiana Lopes)

Depois de três dias em retiro de reflexão, com a dinâmica própria daquele movimento, o encerramento do Convívio Fraterno 1386, que está aberto a participação de quem quiser, é um momento celebrativo da fé dos que quiseram aceitar pertencer ao grupo de pessoas que já fizeram aquela experiência. A aula magna do Seminário não estava nem a meio com os familiares e amigos que aguardavam os 13 jovens que, na noite de 3 de novembro terminavam o Convívio. Estes ainda não tinham entrado no salão onde iria ocorrer a primeira parte do encerramento, mas os presentes já podiam ouvir os tons de alegria que ecoavam pelos corredores do edifício do seminário onde tinham entrado na quinta-feira depois do jantar.

As guitarras marcavam o compasso da música e os acordes ilustravam a frase que, de tantas vezes cantada, acabava por ficar nos ouvidos de todos. “Faz o que Deus espera de ti”, era o mote, acompanhado pelas coreografias dos 13 protagonistas da noite. Não precisavam que a sala estivesse cheia de gente para acompanharem os cânticos com palmas. A alegria deles era mais do que suficiente para preencher cada minúsculo espaço do auditório, e ainda sobrava.

Alguns daqueles que marcavam presença naquela noite, por ser a primeira ver que estavam nestas andanças, achavam aquilo tudo muito estranho, mas acabavam por se deixar contagiar pela alegria.

A música e a alegria marcam a noite de encerramento

“Isto mexe cá duma maneira”

Quando questionados sobre o que se passa num Convívio Fraterno, parece que todos os participantes combinaram nas respostas que variam entre “não tem explicação” e “para perceber, só participando”. A primeira parte do encerramento, em que as equipas compostas pelos novos convivas dramatizam alguns “sketches” e dão testemunho do que viveram nos últimos dias, dá para perceber que aconteceram momentos especiais que irão marcar a vida deles. É o caso da Célia, que confidenciou necessitar de uma paragem na sua vida já há algum tempo e aquela foi a oportunidade para “parar e pensar, deixar de lado tudo o que não é necessário”. Esta jovem de Caxarias faz uma avaliação sucinta dos três dias, que foram “um reaproximar mais intenso deste Amigo que está sempre lá. Um ‘reset’ que nos prepara para um novo início”.

Na primeira parte do encerramento cada equipa apresentou uma dramatização

Os que tiveram a coragem de agarrar no microfone e falar para a plateia, tiveram um ponto comum no seu discurso: agradecer, a várias pessoas, dentro e fora da equipa organizadora e, sobretudo, a Deus. A Ângela inscreveu-se no Convívio Fraterno sem nenhuma motivação especial. “Foi porque sim”, confessou. Explicou que, logo no primeiro dia, “fomos bombardeados com perguntas”, mas, no final “aprendi a ver Deus de uma outra forma”. A Soraia afinou pelo mesmo diapasão: apesar de ter crescido numa família católica, o Convívio foi uma oportunidade para “ouvir Deus de uma maneira diferente da que estava acostumada”.

No grupo dos participantes também esteve presente um jovem casal de três filhos. O marido confidenciou que ” nestes três dias só chorei”. Não sabemos se por saudades dos filhos, se pelas emoções sentidas. A verdade é que “ao final de cada dia deitava-me todo direito de tanta porrada que levava”, uma forma metafórica que arranjou para dizer que não foi fácil assimilar tudo aquilo que era transmitido durante o dia. A Ana Lúcia que, pela primeira vez, integra a equipa organizadora, confirma: “Isto mexe nas entranhas cá duma maneira que não dá para descrever”.

Mas será um Convívio Fraterno assim tão exigente para quem o faz. “Apenas lhes pedimos para pararem”, explica a Sónia, um dos elementos da equipa organizadora, “para perceber que com silêncio e oração podemos ouvir Deus”. O encontro é um momento propício para isso, cria as condições necessárias para a reflexão, meditação, oração, “connosco, com Deus e com os outros”.

O padre Rui Ruivo é o assistente diocesano do movimento. Tomou a palavra já no final da ronda dos testemunhos, mas foi parco no seu discurso por achar que o mais importante tinha sido dito pelos jovens. Mesmo assim, fez questão de deixar uma mensagem aos presentes: “o importante é nós nascemos e deixarmo-nos amar, encontrar lugares de encontro com Deus e deixá-lo entrar.”

O Evangelho a fazer sentido naquela noite

Na segunda parte do encerramento, todos, jovens e convidados, dirigiram-se para a capela de São José, na casa de retiros do Seminário. A noite iria terminar com a celebração da Missa, presidida por D. António Marto, bispo da Diocese. O cardeal também tinha estado presente na primeira parte, mas não fez nenhuma intervenção, preferindo observar e apreciar atentamente tudo o que se estava a passar. Na celebração acabou por agradecer pessoalmente os testemunhos ouvidos. “Foram momentos de evangelização; vós sois um evangelho vivo, com vidas e rostos concretos”, partilhou antes de acrescentar que “agora é o Senhor que nos fala”. Referia-se ao evangelho do dia, que narra a conhecida história de Zaqueu, que vinha a propósito.

O Bispo explicou que, tal como experimentaram os jovens convivas, Zaqueu viveu uma história que se resume em três palavras: busca, encontro e alegria. “Zaqueu não queria apenas ver Jesus; queria ver quem era Jesus”, afirmou, destacando a ousadia daquela personagem em subir à árvore, sujeitando-se à crítica e à zombaria. Para D. António Marto, tal como para os novos convivas, aquele tinha tinha sido um encontro de surpresas em que o inesperado acontece quando Jesus toma a iniciativa de se dirigir ao cobrador de impostos e faz-se convidado para a casa dele. “Jesus não lhe fez nenhuma recriminação ou ameaça; olhou para ele com olhar amoroso e de misericórdia e foi assim que lhe tocou o coração”. Talvez tenha sido isso que aqueles 13 jovens sentiram durante aquele tríduo.

Ao terminar a homilia, o Bispo termina com um texto do Papa Francisco: “Sobe para a árvore como fez Zaqueu, a árvore do desejo de ser perdoado. Eu te asseguro que não hás-de ficar desiludido! Jesus é misericordioso e nunca se cansa de perdoar. Recorda-te bem disto! Jesus é assim!”


Testemunhos de participantes


Os momentos altos foram a oração e o sacramento da Reconciliação

Célia Silva

Há algum tempo, que necessitava de um tempo de paragem, de reflexão, de pausa, e de restabelecer a minha ligação com Cristo; ligação essa tantas vezes mais enfraquecida. Num ano de muitas emoções e vivências, de obstáculos e mesmo de mudanças de direcção no caminho, este tempo era cada vez mais necessário.

E como Ele, mesmo com a ligação mais enfraquecida, nos vai enviando sinais e amigos persistentes, que me fizeram capaz de “contornar” os horários e a agenda sempre cheia, chegou então o dia. Finalmente!

Tudo aquilo que coloco no meu testemunho não consegue de modo nenhum expressar o que vivi e o que me encheu o coração nestes três dias. Desde os pequenos gestos às vivências intensas e emotivas e as partilhas que fomos tendo.

Foi um parar e pensar, um deixar de lado tudo o que não é necessário, para entrar no meu “eu” e responder ao que muitas vezes fica sem resposta simplesmente porque o parar e pensar vai trazer novas interrogações e uma maior necessidade de ir mais fundo no meu “eu” e também de estar com Ele. Nestes três dias reaproximei-me mais deste amigo que está sempre lá, que nunca me deixa, ainda que por vezes me pareça mais longe. 

Os momentos altos foram vividos na oração e sem dúvida no sacramento da Reconciliação, esse “reset” que nos prepara para um novo início. É o avivar desta chama da nossa fé.

A cada dia somos confrontados com a realidade do que nos rodeia, mas é na proximidade a este Cristo e aos outros, ainda que em pequenos gestos, que reavivamos com alegria esta chama, tornando mais forte e partilhando-a.

Célia Silva, Caxarias


Nestes três dias aprendi a falar melhor com Deus

Ângela Pedro

A verdade é que eu não sabia para o que é que eu ía. Sinceramente eu estava com um pouco de receio de que nos deixassem fechados numa sala a rezar durante três dias mas, chegando lá, vi que não se tratava disso. Nestes três dias aprendi a falar melhor com Deus, a partilhar as minhas dúvidas e receios com os outros e aprendi que o nosso gráfico de “beatice” nunca é uma linha reta. Há momentos em que estamos lá em cima e somos “mega beatos”, e outros em que nos esquecemos completamente que Ele está ao nosso lado, sempre lá para nós. Aqui conheci jovens incríveis, com testemunhos de vida e de fé surpreendentes e que me ensinaram muito. De facto a nossa evolução ao longo do convívio é gigante. Eu por exemplo, no primeiro dia não falava com quase ninguém, e no último atirava-me para o chão para tirar fotos e dançava feita maluca. Posso dizer com convicção que estes foram os melhores momentos da minha vida e que nunca irei esquecer as pessoas que fizeram parte deles, estarão sempre presentes nas minhas orações e no meu coração.

Ângela Pedro, Marinha Grande, 16 anos


Parar

Inês Gaspar

Quando fui, não sabia que era aquilo que precisava; para mim parar era ter um dia para mim, dormir até à hora que me apetecesse, ver séries o dia todo e fazer pouco mais do que isso.

Fui, e lá descobri que parar pode ser acordar cedo ao som de Toy e Netinho; pode ser ser esmurrada com perguntas nas quais raramente se pensa e que aceleram ainda mais; pode ser conhecer pessoas novas e conhecer melhor pessoas que já se conhecem; pode ser chorar 3 dias seguidos sem sequer saber porquê.

A ler isto nem parece que parámos, nem faz grande sentido ser essa a palavra inicial, mas a verdade é que ainda assim é a palavra que mais se fez ouvir nos testemunhos de todos os convivas.
Pois bem, acordar cedo às vezes é preciso, quem sabe não estamos mais acelerados a dormir; a porrada de perguntas por vezes também é necessária, quem sabe, essa aceleração são perguntas a precisar de resposta; relativamente às pessoas, vejo-as como precisas para carregar no travão, para agarrarem as rédeas e por fim ao choro… esse é só o resultado da mudança, da possibilidade de ver o mundo ali, em vez de o ver passar; a possibilidade de ouvir e a possibilidade de não ouvir; a possibilidade de pensar, mas com calma, de falar, em voz alta ou só com Ele.

E é isto, ali parámos e ainda redescobrimos aquele Amigo que achávamos que já conhecíamos e que afinal tem tanto ainda por descobrir.

Inês Gaspar, Colmeias


(RE)Confirmar, (RE)Ligar, (RE)Começar

Luísa Canais

Desde que celebrei o meu aniversário, que em tom de brincadeira dizia…”sinto que estes 33 anos vão ser muito especiais”. Esta afirmação saia do meu interior mas, na verdade não havia muita coisa que a fundamentasse, até porque na minha vida estavam a acontecer tantas coisas aparentemente negativas. Eis que aos poucos entre as brumas foram aparecendo raios de luz muito fortes, que me foram iluminando por caminhos diferentes do habitual…e num desses caminhos surgiu o Convívio Fraterno 1386, que decorreu entre 31 de outubro e 3 de novembro de 2019.
E agora…só agora!! Percebo o porque de dizer: ”sinto que estes 33 anos vão ser muito especiais”, pois estão a ser um regressar a casa e regressar a casa é sempre um momento de grande alegria. E ser recebida por um Pai misericordioso, que não esquece, nem abandona nenhum dos seus filhos, é um privilégio apenas para quem lhe abre a porta e o deixa entrar no Coração.

Deus é Amor, Deus Ama o meu Ser tal e qual como é, sem querer mudar uma virgula, ao contrario de mim, que tantas vezes ambicionei a perfeição, de tudo e de cada coisa. Deus nunca me abandonou, mesmo quando lhe virei as costas, criou-me como um ser livre, mas nunca me deixou só, deixa-me escolher, deixa-me discernir…e quantas são as vezes que não sigo o seu caminho…e o que é que ele faz?? Pousa, pousa a sua mão amorosa sobre o meu ombro, mão essa…que pousa mas não pesa, apenas ampara.

É tão bom e tão libertador tomar consciência desta presença Amiga!

É tão maravilhoso sentir este Amor!

É tão nobre a atitude de quem vive na gratuidade, partilhando a sua experiência!

É necessário sair da superfície!

Por vezes vai-se ao fundo!

Mas é ai que se ganha balanço para continuar, e sem Duvida este Convívio Fraterno permitiu-me (RE)Conciliar com Deus, e seguir o meu caminho com mais consciência do que é ser Cristã, do que é ser Igreja e da responsabilidade de tudo isto. Pois não basta “ter uma Fé eventual”, é necessário ter uma Fé bem alicerçada para que nas tribulações, as suas fundações sejam Firmes.

Sendo que independentemente de tudo o foco é não esquecer que no Centro está sempre Deus.

Luísa Canais, Fátima

Paulo Adriano
Paulo Adriano
Diretor do Gabinete de Informação e Comunicação da Diocese de Leiria-Fátima.
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