Como são belos os pés…

Pés gastos.

Pés finos.

Pés endurecidos pelo caminho.

São os pés de quem peregrina até Fátima nestes dias, na sua maioria a pé. Que feridas trazem dentro para que se disponham a ferir os pés para lhes dar colo? Que sossego lhes falta para que venham de tão longe para, em menos de 24h, estarem de regresso às suas origens?

Pés pequenos, pés maiores.

Pés de trabalhador.

Pés de quem (já) não pode trabalhar.

A experiência de cuidar dos pés dos peregrinos é a experiência de escutar as suas histórias, as suas dores – e que, na maior parte das vezes, são muito mais profundas do que as dores nos pés – e também de escutar os motivos que os levam a dar graças a Deus pelas maravilhas que operou nas suas vidas.

Pés em sapatilhas.

Pés em calçado roto.

Pés descalços.

Quem se propõe verdadeiramente a escutar, apercebe-se de uma imensidão de histórias que não dá para imaginar nem ficar indiferente. “Sabe, eu meti-me na droga muitos anos, e estiveram para me amputar o braço por causa das infeções que tinha… Foi graças a Nossa Senhora que, há três anos, consegui sair dessa vida. Desde então, venho todos os anos a Fátima a pé, descalço.”

Pés sujos.

Pés disformes.

Pés feridos.

Aqueles corações que peregrinam até Fátima, a pé ou de transportes, são aqueles que se vêem entregar toda a sua esperança à luz de uma vela acesa na escuridão da noite. E só quem já participou desta multidão de velas acesas pode compreender a beleza da imensidão daquele manto de luz que se forma com as luzes de cada um, individualmente. Uma luz, uma pessoa. Milhares de luzes, milhares de pessoas.

Pés lavados.

Pés cuidados.

Pés beijados.

Mas acender uma vela não chega, tal como não bastou àquelas três crianças terem visto Nossa Senhora. Hoje em dia, duas delas são santas, não por terem visto Nossa Senhora, mas porque foram capazes de acolher nas suas vidas, até ao fim, a mensagem que Ela veio trazer, não deixando de serem elas mesmas. E é por isso que vir a Fátima acender uma vela não chega. Para terminar a experiência de Fátima é preciso sair de Fátima! Vir e estar não é suficiente por si só se não houver a vontade e o empenho por uma transformação interior; se não for feita a experiência do filho que se deixa sentar ao colo da sua mãe, que se deixa olhar e ser amado por ela. Pois só a experiência do amor, do sentir-se e do saber-se amado é que pode converter um coração endurecido e levá-lo a ser fonte de amor para os outros.

E aí, serão sempre “belos os pés que anunciam a paz”.

Diana Costa e Lénea Coelho
Diana Costa e Lénea Coelho
Diana Costa: enfermeira de cuidados gerais. Lénea Coelho: enfermeira especialista em saúde mental e psiquiatria.
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