Carta a um recluso livre

Preparávamos o encontro semanal naquele estabelecimento prisional, dispondo as cadeiras de forma circular para que pudessemos olhar todos uns para os outros e tentar abrir aos poucos o coração de cada um. Foram entrando e foram-se sentando. O encontro começou com um aviso prático, muito simples e, sem que nos apercebessemos disso, incrivelmente profundo: “Só vem quem quer, vocês são livres.”

Como é que se diz a um grupo de reclusos “vocês são livres”? Será que dentro daquelas celas, naquele imenso terreno cercado por barreiras físicas que os impedem de sair para o exterior, eles são livres?

Acreditem que sim. Acreditem, vocês que lêem esta crónica, mas também vocês que, depois daquele encontro, ficaram no mesmo espaço físico enquanto eu peguei no meu carro e fui para casa a pensar nisto.

Vocês são SEMPRE livres: de escolher, de pensar, de sonhar, de querer. E isso nenhuma cela de nenhuma prisão nem qualquer outro espaço físico poderá pôr em causa. E isso também não vai mudar quando puderem voltar a casa, porque nada nem ninguém é dono dos vossos sonhos e das escolhas que vocês fazem; assim como ninguém é dono das escolhas que eu faço e eu não estou numa prisão. Olhem à vossa volta: há tantas pessoas que, não sendo reclusas, se sentem presas por dentro porque vivem aprisionadas em si mesmas, ou ao passado, ou a vidas alheias ou a bens nunca suficientes para satisfazer a sua ambição… Por isso, nunca é o sítio ou as condições em que nos encontramos que dita a liberdade do nosso coração e da nossa mente.

A determinada altura, um voluntário partilhou um pensamento: “Um criminoso não é aquele que comete um crime e vai parar à prisão. Todos estamos sujeitos a poder cometer um crime, um erro que nos leve à prisão. Criminoso é aquele que depois de um crime comete outro, e mais outro e mais outro… é aquele que insiste em cometer o mesmo erro, os mesmos crimes sem tentar sequer remediar-se.”

Caríssimos, não permitam que nada nem ninguém questione a vossa liberdade por estarem onde estão. Os caminhos da vida, as vossas escolhas aí vos levaram. Mas, tal como essas escolhas, continuarão a haver outras daqui em diante, aliás, elas existem todos os dias. E são essas escolhas, a liberdade de optar pelo bem ou pelo mal mesmo dentro da cela de uma prisão, que um dia poderão ditar o rumo e o sentido que querem dar à vossa vida.

Não amarrem a vossa liberdade aos vossos atos, ao vosso passado. Não desistam de vós mesmos; há quem continue a acreditar em vós! E vale a pena buscar a felicidade…!

GIC - Gab. Informação e Comunicação
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