Afinal, somos cristãos ou gnósticos?

Afinal, somos cristãos ou gnósticos?

Era quase um slogan publicitário: comecei a ouvi-lo ainda muito jovem; mas vim a topar com ele sobretudo a partir do início dos meus estudos, do Catecismo à Teologia, passando pela Apologética. Desta, ficou-me a memória de um professor tão exigente na precisão das ideias, que quase nunca conseguíamos dar-lhe uma reposta satisfatória, à primeira tentativa. Deus o tenha no Céu, porque foi um daqueles a quem fiquei a dever grande parte da formação da minha fé, da minha piedade e do meu gosto pela beleza e pela arte.

O que me martelava os ouvidos quase como um slogan publicitário, era a afirmação de que todas as nossas crenças se iriam desmontando à medida que a a ciência progredisse.

Nos livros por onde estudei a história dos dogmas, o gnosticismo aparecia como um conjunto de heresias que, sob o pretexto de adaptarem o dogma cristão às ideias filosóficas mais em voga nesse tempo – os primeiros séculos do cristianismo -, acabavam por pôr em risco toda a visão cristã do mundo, incluindo a origem, a presença e a missão do ser humano nele.

Hoje usa-se esse conceito para designar uma das atitudes fundamentais do pensamento contemporâneo perante a realidade da existência, da origem do ser: gnósticos serão aqueles que rejeitam em absoluto a ideia de criação e tudo quanto possa conceber-se como anterior ao próprio ser humano, fora do que ele possa conhecer.

O Cardeal Ratzinger, com a sua habitual perspicácia, sintetizava assim, há já muitos anos, os efeitos da negação da criação, que ele considera o núcleo central de todos os gnosticismos: “O mistério do sofrimento, do amor, da redenção substitutiva são rejeitados a favor de um controlo do mundo e da vida, através do conhecimento. (…) tudo aquilo em que podemos confiar é o que podemos controlar, o conhecimento, que nos dá poder sobre o mundo e, como sistema totalmente inclusivo, está isento de imprevisibilidade”. “Na visão gnóstica do mundo. Seja ela antiga ou moderna, a criação aparece como dependência, e Deus como a razão dessa dependência”. “O gnosticismo não se confiará a um mundo já criado, mas somente a um mundo ainda por criar. Não há necessidade de confiança, apenas de destreza”.

Depois, o mesmo autor analisa profundamente o que a visão cristã, ao acreditar na criação, ou se quisermos na dependência que daí nos advém, traz de enriquecimento, de luz sobre a real dignidade de todos os seres. Só acreditando na criação, como fonte daquela dependência que me torna pessoa, um ser em relação, o amor sem deixar de ser um mistério, como a sua fonte, que é Deus, se transformará na maior força libertadora, conhecida ou imaginada pelo ser humano.

Claro. Terá de passar pela cruz: esse outro mistério rejeitado por todos os gnosticismos.

Quando lia a afirmação gnóstica de que “não há necessidade de confiança, apenas de destreza”, de repente vi, não só quem todos os dias, com carinho e competência profissional, se debruça sobre as minhas mazelas físicas, acudindo até àquilo que já não é puramente físico … ao ler essa barbaridade, estremeceu-me o coração, ao pensar, assim, de repente, nas centenas de milhares de pessoas que, com o risco da própria vida, em hospitais, clínicas privadas e públicas, em casas da especialidade, por toda a parte, lutam contra a agressividade de uma doença de que, a pouco e pouco nos vamos tornando todos culpados.

Como seria isto possível sem amor? E onde iríamos buscar o verdadeiro amor, senão ao núcleo central da nossa condição de criaturas, onde encontramos crucificado por nós, a entregar ao Pai o Seu Espírito, para nos inundar de esperança, o próprio Criador?

Todos criaturas e culpados, mas todos iluminados pelos fulgores da redenção, sem a qual a criatura humana seria apensa um destroço boiando no espaço criado por ela.

É por isso que me apetece deixar aqui, a terminar, uma pequena parte da oração de Daniel, quando olhava para as ruínas da sua nação, e que a liturgia eucarística desta terça-feira nos oferece, para rezar e meditar.

“Naqueles dias, levantando-se no meio da fornalha ardente, Azarias fez a seguinte oração: «Por amor do vosso nome, Senhor, não nos abandoneis para sempre e não anuleis a vossa aliança. Não nos retireis a vossa misericórdia, por amor de Abraão vosso amigo, de Isaac vosso servo e de Israel vosso santo, aos quais prometestes multiplicar a sua descendência como as estrelas do céu e como a areia das praias do mar”. (Daniel 3, 34-36)

Temos de rezar todos assim, por todos, em pensamentos reservados contra ninguém.

Augusto Ascenso Pascoal, P.
Augusto Ascenso Pascoal, P.
Sacerdote da Diocese de Leiria-Fátima
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