A tentação da santidade

A meio da tarde, com um sol esplendoroso, como que a desmentir as ameaças do furacão Gabriela, sinto vontade de expandir a alegria que me invade, quando reparo nos dons que me vêm de Deus. Gratuitamente, claro, se são dons. Tinham mesmo de ser gratuitos.

Aliás, será que de Deus nos vem algo que não seja puramente gratuito? E se tudo é gratuito, como pode caber no nosso espírito a ideia de ajustar contas com Ele, quando nos não concede o que Lhe pedimos, ou a vida nos parece injusta? Que mal fiz eu a Deus, ouve-se às vezes, para que isto me aconteça?

Por mim, neste momento, o que me apetece é perguntar: que esperará deste pobre pecador a misericórdia divina, que a cada momento me enche de um gozo tão intenso, que me impede de fixar longamente o pensamento nos aspectos negativos da vida?

Ser mais santo?

Claro. Mas isso que significa?

E, de repente, sem que tenha feito alguma coisa para isso, vem-me à memória, ou à superfície da memória, aquela tarde romana de há sessenta e tal anos, em que, numa sala de teatro sem grande qualidade, com dois ou três companheiros de estudo, assistia à representação de uma peça cujo título era “Assassínio na catedral”; mais tarde vim a perceber que se tratava de uma dramatização da vida e morte do arcebispo de Cantuária Tomás Becket. Dramatização a partir de um poema de T. S. Eliot.

Depois, ao longo da minha vida profissional, como estudante e formador, veio ao meu encontro tanta coisa relacionada com o santo arcebispo de Cantuária, que nunca mais acabaria, se quisesse ser exaustivo, na sua enumeração.

Da peça, como tal, porém, ficou-me apenas um pormenor; mas um pormenor de tal ordem que deixou uma marca indelével em toda a minha vida: que ainda hoje é aí que vou bater para entender a profundidade do mistério que, desde há muitos séculos, tem estado nas decisões da Igreja, sempre que tem de se pronunciar sobre o que diz a fé quanto à vocação à santidade.

Era uma cena muito curta: Becket, em fuga diante da fúria de Henrique II, entra em oração; e que pede ele a Deus? Que o livre da tentação da santidade!

Nunca mais pude esquecer isto: a santidade pode muito bem ser uma tentação.

Mais tarde encontrei a oração atribuída a São Francisco:

Senhor, que eu não seja tão santo quanto quero, desde que seja tanto quanto Tu queres!

Claro. Crescer na santidade não será propriamente tornar-se mais perfeito, melhor, como as pessoas normalmente entendem: mais simpático, mais querido, como também se diz por aí.

Coincidência particularmente feliz, as leituras feriais desta segunda-feira da segunda semana do Tempo Comum, anos pares, dão nos um pormenor que, interpretado como a Igreja sempre o leu, nos serve de aviso para os muitos casos em que podemos confundir a santidade como vocação divina, com caprichos que não passam de puro orgulho:

No contexto das campanhas de Saul encontramos este diálogo de Samuel com o rei:

«O Senhor enviou-te a essa expedição, dizendo: ‘Passa ao fio de espada esses amalecitas pecadores e combate contra eles até ao completo extermínio.’ Porque não ouviste a sua voz e te lançaste sobre os despojos, fazendo o que desagrada ao Senhor?» Respondeu Saul a Samuel: «Eu obedeci à voz do Senhor, fui pelo caminho que Ele me traçou, trouxe Agag, rei dos amalecitas, e exterminei esse povo. O povo somente tomou dos despojos algumas ovelhas e bois, como primícias do que devia destruir, para os sacrificar ao Senhor, teu Deus, em Guilgal.»

Samuel replicou-lhe, então:

«Porventura, o Senhor se com¬praz tanto nos holocaustos e sacrifícios como na obediência à sua palavra? A obediência vale mais do que os sacrifícios, e a submissão, mais do que a gordura dos carneiros.

A desobediência é tão culpável como a superstição, e a insubmissão é como o pecado da idolatria»”.

Tudo dito: ser santo é procurar a cada momento conformar a nossa vontade com a de Deus.

Augusto Ascenso Pascoal, P.
Augusto Ascenso Pascoal, P.
Sacerdote da Diocese de Leiria-Fátima
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