A Peregrinação Diocesana nos passos de um grupo de casais

A Peregrinação Diocesana nos passos de um grupo de casais

A importância do caminho percebe-se quando se caminha

Na Peregrinação Diocesana a Fátima, acompanhámos um grupo de casais na jornada que fizeram a pé até ao Santuário. As condições meteorológicas que obrigaram outros grupos a mudar de planos, também dificultaram a caminhada, mas, em momento algum, a possibilidade de desistir foi equacionada.

A proposta foi lançada pelo casal responsável da Equipa de Nossa Senhora, Leiria 38. Para quem desconhece, falamos de um movimento de espiritualidade cristã dedicada aos casais e à vida familiar. A Leiria 38 é, portanto, mais uma entre as dezenas de equipas afetas a este movimento existentes na Diocese de Leiria-Fátima. A ideia inicial daquele casal era fazer a peregrinação a dois, todavia, “achámos que seria importante abrir a possibilidade de integrar os outros casais da nossa equipa, por razões óbvias e, sobretudo, para fomentar o espírito de equipa e a nossa coesão enquanto grupo”, explica a Sónia que, com o marido, faz parte da equipa que junta cinco casais desde a sua formação, há cerca de seis anos. Além disso, “seria uma oportunidade para integrar a dinâmica da Diocese participando num evento espiritualmente enriquecedor”.

A saída

Para os preparativos, nada de especial a fazer. Pouco mais era necessário que combinar a hora e o ponto de partida. Daí que, sendo a maioria dos casais da paróquia de Amor, ou com ligações afetivas àquela comunidade, depressa foi convencionado que o local de encontro e, por conseguinte, de partida, seria a igreja do lugar dos Barreiros, às 3h00 da madrugada do dia 7 de abril. O que ninguém adivinhava é que o tempo podia fazer das suas, já que a vaga de frio e de chuva previstos para aqueles dias, obrigavam a precaver-se de forma mais cuidada. Se, até ali, a opção era fazer o percurso em modo de “auto-suficiência”, as previsões obrigaram a adicionar uma viatura de apoio que seria a solução para qualquer eventualidade. O único senão seria a sua condução que se decidiu ser feita à vez, por cada um dos elementos do grupo.

À hora marcada, tal como os restantes elementos, a Teresa compareceu após a noite que, como seria de esperar, foi pouco dormida. Embora ela tenha posto algumas dúvidas relativamente à sua participação, a verdade é que “uma semana complicada e frágil fez pensar que precisava de vir para buscar forças e respostas”. Questionámo-la se fazia sentido “ir buscar forças” numa atividade que exige forças. Respondeu que, “é uma prova para eu perceber as forças que tenho e a elas juntar as forças que Nossa Senhora me dá; isso vai ser bom para a minha autoestima”.

Independentemente das razões de cada um, a jornada começou com três casais a saírem da igreja dos Barreiros, na paróquia de Amor, às 3h08. O quarto casal, por ser da paróquia das Cortes, juntar-se-ia ao grupo durante o caminho. O escuro da madrugada não deixava ver as nuvens que, mesmo assim, ameaçavam largar água a qualquer momento. Com o frio que se fazia sentir a entrecortar os rostos e as mãos, não admira que a indumentária mais se assemelhasse à usada numa noite de invernosa tempestade. Sempre pela esquerda, como mandam as regras, avistar-se-ia um pouco mais à frente um grupo, também ele exíguo e, também ele, com o mesmo destino, imaginava-se.

A primeira chuva

Andados pouco mais de cinco quilómetros, às 4h12 a chuva deu, finalmente ou talvez não, um ar da sua graça. Embora alguns já viessem aviados de chapéu de chuva, dois deles, mais destemidos, viram-se obrigados a correr até à viatura de apoio que estacionava umas boas centenas de metros mais adiante, a fim de complementarem a sua indumentária com impermeáveis. A chuva era fria e, com a ajuda do vento, poderia trazer algumas sequelas menos saudáveis. Àquela hora, enquanto se ouviam ao longe os ritmos graves da semana académica, eram abeirados por um vendedor de flores cuja vâ tentativa de impingir um “bouquet” ainda o presenteou com uma maçã para aconchegar o estômago. Menos mal.

Atravessada a cidade, a breve tormenta acabaria por passar. O Helder, conhecido pela sua afeição aos desportos de corrida de longo curso em terrenos acidentados, confidenciava-nos que “também é importante o exercício que se faz, mas não é isso que interessa”. Para ele, o mais importante estaria na chegada à meta, “ao destino, ao Santuário”. “Aí, há qualquer coisa que mexe connosco, há uma força maior que nós, em que acreditamos”, partilha, acrescentando que “fazer este caminho com a minha esposa, a Patrícia, tem um significado diferente: é caminhar no mesmo sentido, na mesma direção”. No fim de contas, estavam a viver uma metáfora do que se pretende na vida em casal: não caminhando sempre nem necessariamente de mãos dadas, a importância de partilharem o mesmo objetivo faz toda a diferença.

Ainda em Leiria, junto a uma conhecida casa de hambúrgueres “fast-food”, cruzaram-se com o último grupo de peregrinos que avistaram em todo o percurso. Também aí, numa paragem para troca de condutores, pára uma segunda viatura. As luzes da cidade permitiram reconhecer o senhor Serra que quis desejar uma feliz peregrinação. “— Olhe que não somos o seu grupo”, informaram-no, por acharem que o escuro da madrugada o pudesse estar a induzir em erro. Lá explicou que não está a acompanhar nenhum grupo em especial e que aquela era a sua maneira de ser peregrino: as limitações físicas já não lhe permitem aventurar-se como pedestre e, assim, escolheu todos os anos fazer o caminho na sua carrinha e oferecer a sua ajuda aos viandantes que eventualmente precisem dela. Eram 5h05.

O aconchego de uma breve ceia

Tal como estava previsto, às 5h30 juntou-se o casal de faltava. Chegados à Ponte Cavaleiro, nas Cortes, para além dos companheiros havia à espera deles um repasto marcado numa padaria aí existente. Refeição frugal, é certo, mas aqueles pães com chouriço, acabadinhos de sair do forno, acompanhados por um aromatizado café da avó, souberam por lautos banquetes de refinadas iguarias. E foram eles, os chegados companheiros e os pães, o melhor tónico para a viagem dos 17 quilómetros que ainda faltavam.  Um deles, a Alexandra, dizia-nos que tinha vindo, porque “poderia ganhar enquanto cristã e enquanto membro desta equipa”. Embora a suas motivações também fossem pessoais, afirmou peremptoriamente que “não vim apenas por mim”. Já tinha feito anteriormente aquele caminho noutros grupos, sobretudo na catequese, mas, desta vez, era a primeira que estava a fazê-lo “enquanto casal”. A sua cara metade completava o raciocínio dizendo que “já há muito tempo que não vinha com este sentido de vir agradecer: venho agradecer aquilo que nós temos e somos e reforçar este caminho que fazemos com a presença de Deus na nossa vida”. Para o Diogo o sentido de uma peregrinação a pé “é irmos ao encontro, sairmos do conforto em que estamos instalados e pormo-nos a caminho em direção ao que esperamos encontrar”. Acrescenta que “depois, há todo o contexto do sacrifício, da resistência, da fé que nos dá forças e que dá sentido ao que fazemos; é aí que cada um se encontra a si próprio, porque faz refletir em coisas que não refletiríamos se estivéssemos no nosso conforto”.

A subida e a via-sacra

Parecia que estas palavras estavam a prever o troço do percurso fisicamente mais exigente. Logo a seguir à passagem pelo centro das Cortes, inicia-se a famosa subida da Senhora do Monte. Eram 7h04 quando o grupo chega à capela que dá as boas vindas a quem chega a um dos pontos mais altos do concelho de Leiria. O sol já tinha nascido e, juntando a isso, as tréguas que a meteorologia estava a dar, o grupo pôde apreciar a imponente vista do local, mesmo que a fadiga já estivesse a tomar conta das pernas dos peregrinos. A propósito, eram horas de rezar as 14 estações da via-sacra, como estava previsto no programa do grupo. Sem pausas, cada casal, alternadamente, orientou cada uma das estações, inspiradas nos textos escritos por quinze jovens, para serem meditados no Coliseu de Roma na Sexta-feira Santa de 2018, com o Papa Francisco. No final deste forte momento espiritual, a Teresa partilhava que “achei tudo muito intenso; não costumo fazer a via-sacra, mas quando as coisas são preparadas por nós e da nossa própria iniciativa, o impacto é diferente, porque têm a nossa linguagem”. Acrescentou que “a envolvência também conta, assim como irmos num grupo mais reduzido e mais próximo”. Com ela concordava a Alexandra: “a escolha dos textos faz toda a diferença, e esta via-sacra, ao contrário de muitas outras, tinha mais coisas a ver connosco”. Contou que já tinha feito muitas, na sua terra natal, no longínquo Alentejo. “Acompanhava com a viola, porque íamos a cantar entre as estações; portanto, é a primeira vez enquanto iniciativa pessoal”, justificava. Já o marido “vinha a pensar nas características de uma via-sacra, onde parece que existe um enaltecimento da dor e do sofrimento, mas acaba por ser um reencontro com a nossa própria vida com a vida de Jesus”. Para o Diogo, “as últimas estações, quando apenas ficam os amigos de Jesus, são um sinal de esperança”. E dizia que tinha gostado “de estar a rezar a via-sacra num caminho no meio do pinhal, onde não há carros e não passa ninguém, onde a envolvência fez toda a diferença”.

A chuva também quis ir à Missa

Quase a chegarem à Perulheira, acabou-se o bom tempo e a chuva passou de ameaças constantes a uma constante permanência, nunca mais largando os caminhantes até ao fim. A chegada ao Santuário aconteceu às 9h34. A chuva estava a deixar os pés molhados e isso obrigou a ligeiras mudas de roupa para maior aconchego e, sobretudo, para evitar males maiores. Alguns deles, dos pés, evidenciaram os maus-tratos provocados pela carga de mais de 30 quilómetros percorridos, em contraste com os rostos de satisfação que aumentou ainda mais com um breve farnel tomado num abrigo improvisado em que a estrela foi um bolo caseiro e um café expresso num dos cafés mais próximos. Mesmo assim, ainda houve forças para as pernas resistirem de pé durante as duas horas da celebração eucarística presidida pelo Bispo da Diocese de Leiria-Fátima.

No rescaldo da intensa jornada, a Patrícia comunicava aos companheiros de viagem: “para nós também foi caminhada importante! Gostámos muito de a fazer na vossa companhia! Das vezes todas que fui, hoje foi a que custou menos”. A Alexandra formulou o desejo de “que seja assim, sempre: que os ‘granizos’ e ‘mau tempo’ das nossas caminhadas não nos demovam de fazermos o caminho juntos, como casal, juntos como equipa”. E a Sónia sentia-se grata “por cada gesto, por cada palavra, porque convosco o caminho tornou-se mais fácil”.

Foi uma boa peregrinação e um bom momento de equipa. A via-sacra, por um lado intensa, que nos leva a pensar e meditar, e que nos pode ajudar nas nossas vidas, mas ao mesmo tempo aliviou a caminhada, pois ao estarmos concentrados na meditação ajudou no percurso.

André

Nem de propósito, o Cardeal D. António Marto terminava a sua homilia na celebração eucarística desta forma:

“O nosso mundo, a nossa sociedade e a nossa cultura estão a dar sinais de envelhecimento espiritual. Têm imensa necessidade desta esperança de renovação. É um desafio à nossa missão de cristãos no mundo. Que Nossa Senhora de Fátima nos acompanhe na peregrinação da nossa vida e nos ajude a ser testemunhas corajosas desta esperança capaz de renovar os corações e a face da terra.”

Paulo Adriano
Paulo Adriano
Diretor do Gabinete de Informação e Comunicação da Diocese de Leiria-Fátima.
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