Centenário das Aparições de Fátima

Categoria: Artigos/Conferências
Criado em 01-12-2010

Conferência na Abertura do Centenário das Aparições

 

Centenário das Aparições de Fátima

† António Marto

Santuário de Fátima, 1 de Dezembro de 2010

Aproxima-se, no horizonte do tempo, a data memorável dos cem anos das Aparições de Nossa Senhora em Fátima. 2017 será, sem dúvida, um Ano jubilar, como o requer a importância do acontecimento. Desde logo nos surge uma primeira interrogação: que quer dizer celebrar o centenário das Aparições?

Cem anos depois: memória e profecia

Antes de mais, é um momento histórico para exprimir louvor e gratidão a Deus Pai, Filho e Espírito Santo, por este sinal particular da benevolência do seu amor, através de Maria, para com a humanidade que ansiava por erguer-se do abismo. De facto, como escreveu João Paulo II, de entre os sinais dos tempos do século XX “sobressai Fátima, que nos ajuda a ver a mão de Deus, guia providente e Pai paciente e compassivo também deste século XX”.

Cem anos representam já uma longa peregrinação no tempo que convida a “recordar”, tal como Moisés exortava a fazer: “Recorda-te de todo o caminho que o Senhor, teu Deus, te fez percorrer ... Reconhecerás, então, no teu coração que, tal como um homem educa o seu filho, assim o Senhor, teu Deus, te educa” (Deut 8, 2.5). É um convite ao povo de Israel a reler o seu passado, descobrindo nele a providência de Deus e o amor com que o Senhor o conduziu através de caminhos difíceis.

Esta palavra é dita a nós hoje: recordai-vos do caminho que o Senhor vos fez percorrer nestes cem anos, como Ele esteve próximo de vós através da mensagem da Senhora vinda do Céu e da sua protecção materna.

A celebração do centenário não se reduz a uma evocação histórica. É, sobretudo, ocasião para tomar consciência de que o apelo de Nossa Senhora em Fátima não ressoou em vão; de que a sua mensagem continua a exercer uma influência benéfica para hoje e para o futuro do nosso caminho de Igreja e da história da humanidade. “Iludir-se-ia quem pensasse que a missão profética de Fátima esteja concluída. Aqui revive aquele desígnio de Deus que interpela a humanidade desde os seus primórdios: «Onde está Abel, teu irmão? (...) A voz do sangue do teu irmão clama da terra até Mim» (Gen 4, 9)”(Bento XVI).

Toda esta riqueza de motivações mostra que a comemoração do centenário das Aparições não se pode reduzir a um conjunto de eventos e celebrações em 2017. Como os grandes acontecimentos, também este requer uma preparação condigna. Para isso recebemos um forte incentivo das palavras do Papa Bento XVI na sua homilia em Fátima: “Mais sete anos e voltareis aqui para celebrar o centenário da primeira visita feita pela Senhora «vinda do Céu», como Mestra que introduz os pequenos videntes no conhecimento íntimo do Amor Trinitário e os leva a saborear o próprio Deus como o mais belo da existência humana. (...) Possam os sete anos que nos separam do centenário das Aparições apressar o anunciado triunfo do Coração Imaculado de Maria para glória da Santíssima Trindade”.

Sete luzes para o nosso caminho

Nestas palavras do Santo Padre encontramos desenhado o horizonte do tempo e até a perspectiva em ordem à preparação da celebração do centenário. Neste sentido, o Santuário elaborou um programa com a duração de sete anos – um septenário –, inspirado na simbólica bíblica do número sete.

Na Bíblia, este número indica totalidade e plenitude. No contexto do centenário sugere-nos que o programa abarque a totalidade da mensagem.

Alem disso, evoca-nos, mais concretamente, um ícone muito significativo do Antigo Testamento: o famoso candelabro sagrado, com sete braços e sete lâmpadas a arder, colocado no “Santo dos Santos” do templo de Jerusalém. Segundo uns exegetas simboliza a sarça ardente em que a santidade e a voz de Deus se manifestaram a Moisés, no monte Horeb; segundo outros, representa os dias da criação e da história, tendo no centro o sábado como sinal da Aliança.

De todo o modo, o candelabro (menorah, em hebraico) é símbolo da presença de Deus, Luz que ilumina constantemente o seu povo, como o iluminou durante os quarenta anos através do deserto. Torna-se num convite permanente a caminhar na luz divina, na presença de Deus que guia a história e protege o povo, e a viver na esperança, nascida da fé, que lhe dá a energia para superar as provações. Convida ainda a arder diante do “Santo dos Santos” em constante oração de louvor e de acção de graças.

 A luz de Deus irradia para manter acesa em nós a luz do coração e a luz do rosto. Um coração cheio de luz brilha sobretudo no esplendor do olhar, capaz de iluminar todo o rosto.

 Tendo presente toda a riqueza e beleza do simbolismo do candelabro podemos tomá-lo como ícone dos sete anos de preparação do centenário das Aparições.

A reflexão sobre a Mensagem de Fátima ilumina várias dimensões da fé e da existência cristã e várias vicissitudes da história. Tendo em conta estes aspectos, uma comissão teológica procurou articular um itinerário à volta de sete grandes temas, construindo assim uma espécie de candelabro espiritual para nos ajudar a iluminar os cenários do mundo e do coração humano com a luz da mensagem.

Os sete temas são sete luzes para o nosso caminho espiritual para avançar com Maria e com os Pastorinhos ao encontro da Beleza de Deus e do triunfo do seu amor misericordioso que salva o mundo, simbolizado no triunfo do Coração Imaculado de Maria.

A primeira luz deste candelabro espiritual é a da Beleza do Rosto de Deus, do seu Amor Trinitário, no qual os pastorinhos foram introduzidos pelo Anjo e pelas mãos de Nossa Senhora, suscitando neles o encanto, o gosto e o gozo da presença de Deus, que se exprimiam em adoração. “Nós estávamos a arder naquela luz que é Deus e não nos queimávamos. Como é Deus!!!”; “Gosto tanto de Deus!” – exclamava o Francisco. Na simbólica bíblica do candelabro, a luz da adoração alimenta toda a outra luz. É a chama central na qual as outras se acendem.

A segunda luz que se acende é a de Deus Salvador que nos chama a colaborar na história da salvação e no mistério da redenção do mundo em Cristo. Esta chama alimenta-se através da nossa entrega na fé, como Maria. “Exemplo e estímulo são os Pastorinhos que fizeram da sua vida uma doação a Deus e uma partilha com os outros por amor de Deus” (Bento XVI).

A terceira luz é aquela em que podemos contemplar o Deus fiel da Promessa e da Esperança, que ao longo da história da salvação conforta o seu povo, infundindo-lhe coragem e confiança, como a Maria: “Não tenhas medo”. “É precisamente de esperança que está impregnada a mensagem que Nossa Senhora deixou em Fátima”, convidando os homens a ter confiança em Deus. “A fé em Deus abre ao homem o horizonte de uma esperança certa que não desilude; indica um sólido fundamento sobre o qual apoiar, sem medo, a própria vida; pede o abandono, cheio de confiança, nas mãos do Amor que sustenta o mundo” (Bento XVI).

Nesta lógica segue-se a quarta luz que faz resplandecer o Deus compassivo que se inclina sobre os sofrimentos da humanidade, o poder da sua misericórdia maior que o nosso coração e mais forte que o poder do pecado e do mal. “Maria, aparecendo aos três pastorinhos, abriu no mundo um espaço privilegiado para encontrar a misericórdia divina que cura e salva” (Bento XVI). Ela “ajudou os pastorinhos a abrir o coração à universalidade do amor”, à compaixão e à reparação como força de resistência à banalização do mal e como colaboração na renovação do mundo.

A quinta luz é o esplendor da santidade de Deus que irradia para nós no rosto de Cristo e de que Maria é espelho e mestra. Esta santidade é-nos oferecida como experiência de comunhão com Cristo e na solidariedade entre todos os membros do Corpo de Cristo, na Comunhão dos Santos que é a Igreja. Convida-nos a dar a “medida alta da santidade” à vida cristã, alimentada particularmente pela oração. “A Mensagem de Fátima não vai, substancialmente, na direcção de devoções particulares, mas precisamente na resposta fundamental, ou seja, a conversão permanente, a penitência, a oração e as três virtudes teologais: fé, esperança e caridade” (Bento XVI).

A sexta luz leva-nos a abrirmo-nos a Deus, plenitude de vida, oferecida desde já em Cristo: “Eu vim para que tenham vida”. Esta chama é alimentada, de modo particular, na celebração dos dons e bênçãos com que Deus nos agracia, na verdadeira alegria cristã, na consciência do valor eterno da nossa vida e do nosso peregrinar. “Em Fátima, a Virgem Santa convida todos a considerarem a terra como lugar da nossa peregrinação rumo à pátria definitiva que é o Céu” (Bento XVI).

Por fim, o nosso candelabro espiritual fica completo com a sétima luz: um olhar contemplativo e inspirador à beleza d’Aquela que foi escolhida pelo Deus da Aliança para desempenhar uma missão única na história da salvação: ser a Mãe do Redentor, a Arca da Nova Aliança, a Mãe da Igreja. Maria dá-nos olhos e coração para contemplar a ternura de Deus e a sua misericórdia como força e limite divino face ao poder do mal no mundo. Assim aconteceu em Fátima ao apresentar-se como a Senhora do Rosário, como a Mãe que, através do seu Coração Imaculado, fala coração a coração aos seus filhos, trazendo-lhes uma mensagem exigente e consoladora de paz e deixando-lhes uma promessa: “Por fim, o meu Coração Imaculado triunfará”. Em palavras do Santo Padre Bento XVI: “No final, o Senhor é mais forte do que o mal, e Nossa Senhora é para nós a garantia visível, materna, da bondade de Deus, que é sempre a última palavra na história”.

 Agradecendo aos membros da comissão teológica que elaborou este itinerário temático, concluo esta apresentação com o mesmo voto de Bento XVI em Fátima: “Possam os sete anos que nos separam do centenário das Aparições apressar o anunciado triunfo do Coração Imaculado de Maria para glória da Santíssima Trindade”.

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Entrevista de D. António Marto à Agência Ecclesia

Prestes a receber o Papa Francisco em Fátima, D. António Marto fala da visita, do Centenário das Aparições e da Mensagem de Fátima.



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