A porta aberta

Categoria: Artigos/Conferências
Criado em 03-12-2007

Texto de D. Klaus Hemmerle sobre o Natal

 

 

 

A porta aberta

«Hoje, Ele abre-nos de novo a porta para o esplendor do paraíso.
O querubim já não está de guarda:
ao Senhor seja dado o louvor, a glória e a honra!».

Esta estrofe de um Lied do século XVI, num texto de Nikolaus Herman, é cantada, muitas vezes, na Missa da meia-noite, na noite de Natal.

O versículo vem mesmo do coração do acontecimento do Natal. A porta estava fechada quando Ele bateu, incógnito e escondido no humilde ventre de sua Mãe.

Agora é-nos proclamado: a entrada do paraíso já não é proibida; a porta foi aberta definitivamente.

Interroguei-me sobre qual seria o peso específico da nossa época,onde residiria a sua necessidade mais urgente, e lembrei-me desta antiga estrofe.

Quantas vezes me foi dito: a porta está fechada; já não se pode entrar. Pensava nas preocuções de âmbito político, onde os poderosos ameaçam fechar-se no seu poder e os fracos na sua debilidade; na ânsia nos negócios; no receio de perder o emprego: está tudo fechado, não há nada a fazer; no receio pela Igreja; partidos e grupos preocupados pela ideia de que não se consegue modificar nada, que tudo esteja encalhado.

E pensava nas pessoas que casualmente encontro, desesperadas por causa dos seus parentes mais próximos: pais que receiam não poder voltar a falar com os seus filhos; filhos que dizem que a porta já está trancada, o diálogo com os pais já está estragado. Pensava nos casais, nos amigos que dizem que a vida comum e a comunhão entre eles se bloquearam.

Nestas experiências todas percebe-se o eco de uma experiência ancestral da humanidade: a consciência de a porta do paraíso estar trancada; do facto de nos ter sido proibido o lugar que nos é mais propício, o habitat originário da nossa vida, que deixámos e do qual fomos expulsos. Assim, decidimos agarrar nós a nossa vida e fazer de Deus uma figura de segundo plano.

a) Tentação de forçar a porta
Usando só as nossas forças não conseguimos forçar a porta e tomar posse do Paraíso. Qualquer promessa de salvação apenas terrena vai chocar contra um obstáculo intransponível, reduz-nos aos nossos limites e leva-nos à resignação.

b) Ilusão de um paraíso
Muitas vezes seguimos um outro caminho: evadimo-nos num sonho infantil, ao mesmo tempo emocionante e perigoso, o sonho do paraíso, que está constantemente a ser aproveitado e, nos nossos dias, comercializado da pior maneira.
Assim, não fazemos outra coisa além de cair na desilusão: quando procuramos obter, a todo o custo, a nossa felicidade, agarrando-a ou criando a ilusão de algo "paradisíaco"; quando tentamos usar da força para entrar no paraíso, ou sonhamos que a nossa debilidade não existe...

c) Deixar-se convidar por Aquele que é a Porta
Nesta situação introduz-se, humildemente, o anúncio do Natal, que mostra um outro, um terceiro caminho: não podemos penetrar no íntimo mais secreto do mistério, com as nossas forças, nem podemos abrir a porta do paraíso com a astúcia. Para nós, ela só pode abrir-se pela mão d'Aquele que é Senhor da nossa vida. Ele chegou no Natal.
Apesar de não nos podermos elevar com as nossas forças, Ele pode descer até nós; apesar de não podermos entrar, reivindicando uma espécie de "auto-senhoria", Ele pode vir até nós. Foi isto que Deus fez em Jesus. Neste Menino, Ele aproximou-se de nós; neste Menino, Deus está perto de nós e no meio de nós. Nós não estamos em condições de percorrer a distância que nos separa d'Ele, mas é Ele a percor­rê-la; e, ao percorrê-la, leva-nos consigo. Com Ele podemos ir ao Pai. Prosagogé (acesso) é um termo importante do Novo Testamento. Em Jesus Cristo este acesso foi aberto.
Por isso, já não nos encontramos diante da porta fechada do paraíso, mas podemos deixar-nos convidar por Aquele que é a porta; n'Ele adquirimos condições para entrar no espaço aberto de Deus, em cuja porta já não está nenhum querubim a repelir-nos; ninguém pode fechar esta porta, uma vez que foi aberta de uma vez para sempre; nenhuma violência, nem culpa do mundo será capaz de voltar a fechá-la.

d) Maria, o caminho para chegar à Porta
Contudo, resta-nos perguntar o que nós devemos fazer para encontrar o caminho que leva a esta porta e para a conseguir transpor. Que passos podemos dar neste caminho que nos foi aberto em Jesus? Há um modo com o qual o homem pode ser participante deste caminho, uma estrada do homem, que nos é possível percorrer.
É o caminho de Maria,a quem aparece o anjo, a quem Deus vem perguntar se está preparada. Maria é aquele ser humano que, à pergunta do anjo, responde com o seu sim. Ela permitiu que Deus, que veio ter com ela, entrasse nela, e deu-Lhe espaço em si; no seu coração continuou para Deus e com Ele, e deu-O a nós, de tal modo que os anjos, no Natal, pudessem convidar-nos a voltar, de novo, a Ele.
Maria conduziu aquele "diálogo supremo" e deixou-se envolver naquele "encontro supremo" da humanidade, em que a porta se abriu: Deus veio ao encontro do ser humano e o ser humano respondeu e aproximou-se de Deus. Isto aconteceu, de uma vez para sempre, entre o anjo de Deus e aquele ser humano que se abriu, em nome de toda a humanidade, a este diálogo, indicando-nos, assim, o caminho em que se realiza o Natal, também para nós: deixemos que Deus venha ao nosso encontro, aproximemo-nos, com Ele, d'Ele e dos outros.

e) O «sim» do diálogo que abre a porta!
Um diálogo assim, levado ao máximo nível, é, por muitas razões, necessário a todos nós. Cada um de nós é o vértice da humanidade, em cada um de nós deve acontecer algo que só através d'Ele se pode verificar. Deus espera, neste mundo, de cada um de nós, um sim, que apenas cada um pode dar, no lugar onde se encontra: se dissermos sim, cada um do lugar onde se encontra, então, no mundo, elevar-se-á uma luz; mas se nos recusamos a estar ali, onde fomos chamados, fecha-se uma possibilidade na nossa história.
Por isso, cada um de nós é o vértice da humanidade, cada um tem a sua vocação, e cada um deve dar um impulso para abrir aos outros, aqui e agora, neste lugar, neste momento, a porta que, em Jesus Cristo, foi aberta.
Reflictamos nisto, no Natal: se sabemos responder ao chamamento de Deus com o sim da nossa vida, o mesmo sim de Maria. Então, este sim será apoio para a nossa força e para a nossa fraqueza, para este trabalho sem sentido, para este endurecimento dos rostos; aceitaremos aquele homem, esta criança, estes pais, este parceiro, esta fidelidade: esta cruz.
E, depois, é impossível esquecer que também entre nós são constantemente necessários diálogos supremos, para que se abram, também entre nós, as portas. Não existe outro método, não existe outro caminho, senão aquele que Deus empreendeu: ir ao encontro do outro, e ir, com Ele, ter com os outros. Jesus Cristo é a porta, Ele é a parte de Deus voltada, dedicada a nós: n'Ele, Deus, depois do sim de Maria, veio a nós, para sempre. A porta do paraíso foi aberta, o querubim já não vigia a entrada. Aliás, convida-nos a entrar com o nosso sim, e a proclamar aos homens, com os anjos do Natal, o louvor e a glória de Deus.

KLAUS HEMMERLE, Deus fez-se menino. Meditações sobre o Natal. Ed. Cidade Nova, 2002, 46-51

 

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