O presbitério perante a situação actual e os desafios pastorais

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Categoria: Artigos/Conferências
Criado em 22-04-2008

Intervenção do Revº Pe. Adelino Guarda, na Assembleia do Clero, no dia 22 de Abril de 2008.

 

O DESAFIO DE TRABALHAR EM EQUIPA

Para lá de tudo o que hoje possamos dizer, julgo que é uma alegria podermos estar aqui em contacto uns com os outros, para discorrermos um pouco sobre coisas que nos tocam de perto.

Somos uma Assembleia muito particular que pouco ou nada tem a ver com o espírito democrático / reivindicativo, tão vivo na nossa sociedade; estamos unidos ao nosso pastor e com ele a toda a Igreja. Há dois anos, neste preciso dia, o Senhor D. António foi nomeado para a nossa Diocese; dois anos antes, também neste dia, fora nomeado para Viseu: datas significativas a que não podemos deixar de nos referir pois são, decerto, acontecimentos felizes na vida do nosso Bispo e, por extensão, do presbitério ao qual pertencemos.

Gostaria também de aproveitar este momento para prestar a minha homenagem aos muitos padres que, de forma anónima, gastam a sua saúde e a sua vida fazendo da caridade pastoral o eixo do exercício do seu ministério e de lembrar os Padres Manuel Pereira Júnior e Manuel António Henriques, recentemente falecidos.

Parto de um pressuposto que me parece fundamental: mais do que apontar causas e/ou soluções técnicas para os muitos desafios e problemas com que nos debatemos, é fundamental e necessária a nossa conversão pessoal, a qual há-de criar uma autêntica revolução nas prioridades e nas respostas às dificuldade que experimentamos.

A complexidade desgastante das situações pastorais que cada um de nós vive hoje requer humildade de coração, um caminho infatigável de conversão e a atenção necessária para nos regenerarmos no ministério, sobretudo nos momentos mais difíceis.

A inevitável 'fragmentariedade' da nossa vida de presbítero requer que se defina um princípio unificador de toda a sua existência, princípio esse que radica na sua união a Cristo cabeça e pastor e no exercício do ministério como procura da vontade do Pai, no dom de si mesmo por aqueles que lhe estão confiados.

 

DESAFIOS DO TRABALHO EM EQUIPA: 1º A RELAÇÃO BISPO / PRESBÍTERO

O presbítero é, em primeiríssimo lugar, um discípulo. Enquanto cristão e como caminho de santificação, o modo de vida que se lhe pede é o de progredir na união com Cristo, deixando-se, no Espírito Santo, configurar sempre mais a Ele e participando da sua missão de pastor.

O presbítero corresponde à sua vocação amando e servindo a Igreja.

No seio da Igreja particular à qual nos entregamos somos chamados a cultivar uma relação fundamental de unidade e colaboração com o Bispo, que se exprime antes de mais na obediência.

Em virtude da ordenação, como presbíteros, tornamo-nos disponíveis para as tarefas que o Bispo nos confia, embora não temendo apresentar aspirações pessoais e sugestões, mas deixando-se guiar sempre pela solicitude e pelo bem da Igreja, que vêm primeiro do que qualquer desejo pessoal.

Para uma verdadeira colaboração entre Bispo e presbíteros, é preciso valorizar
os espaços institucionais – Conselho Presbiteral, organismos representativos, e outros momentos análogos;
a mediação das vigararias.

 

DESAFIOS DO TRABALHO EM EQUIPA: 2º RELAÇÕES FRATERNAS NO PRESBITÉRIO

O Presbitério Diocesano é referência imprescindível e condição objectiva de comunhão para os presbíteros. Gerado da raiz do próprio sacramento da ordem o presbitério diocesano favorece e exige a comunhão no exercício do ministério, seja qual for a missão recebida por qualquer presbítero.

Cuidar das formas de fraternidade e de colaboração possíveis diz respeito a todos e a cada um dos presbíteros.

DESAFIOS DO TRABALHO EM EQUIPA: 3º OS PRESBÍTEROS NA COMUNIDADE

O contexto imediato da experiência espiritual e eclesial do presbítero é a própria comunidade que o bispo lhe confiou para a vivência do seu ministério.

Sabemos que foi do Bispo que recebemos o encargo do ministério (disponibilidade, obediência); as comunidades sabem que os seus padres lhes são enviados pelo Bispo, os quais, por vocação, devem continuar disponíveis para o serviço de toda a Igreja Diocesana.

Quando se fala de transferências a necessidade de renovar a real disponibilidade para qualquer serviço diocesano, professada no dia da ordenação.

O exercício maduro e criativo da fraternidade entre padres, diáconos, consagrados e leigos oferece-nos uma forma originária e autêntica de viver a própria humanidade.

No exercício do ministério que nos foi confiado, vivemos a responsabilidade que recebemos de guia e de pastor, como irmão no meio dos fiéis; temos a obrigação de reconhecer e promover a dignidade e a responsabilidade dos seus colaboradores, homens e mulheres; não podemos perder a consciência de que não somos o único responsável da comunidade cristã.

Com todos evitemos um estilo de relação marcado pela superioridade ou pelo clericalismo.

 

DESAFIOS DO TRABALHO EM EQUIPA: 4º HÁ DIVERSIDADE DE ENCARGOS MAS O MINISTÉRIO PRESBITERAL É ÚNICO.

Como padres somos chamados a colaborar com o bispo nas mais diversas tarefas; porém, o ministério é único em virtude da força do sacramento da Ordem e do comum serviço à mesma Igreja diocesana, que configuram um só presbitério.

A unicidade do ministério e a necessidade de que ele se realize na fraternidade presbiteral exprime-se de modo particular nas modalidades que constituem as articulações do presbitério diocesano: presbitério paroquial; vicarial; comunidades de presbíteros para o ministério, padres religiosos; padres não diocesanos que trabalham na diocese ...

Não é tanto o que fazemos, mas o dom de nós mesmos que mostra o amor de Cristo pelo seu rebanho.

O trabalho em equipa exprime-se na estrutura e na vida da Igreja.

Na estrutura, desde logo, organicamente articulada na multiplicidade de carismas e ministérios, animados e guiados pela ordem apostólica; compaginada ainda na 'mútua interioridade' entre Igreja universal e Igrejas particulares.

Na vida, através das formas de participação que activam a corresponsabilidade que constitui a comunidade.

Tudo isto se alimenta da caridade e da oração, e concretiza-se numa autêntica cultura de comunhão, cujos traços característicos são:

• a aceitação da multiplicidade das experiências e o acolhimento da diversidade de pessoas;
• a atitude e o esforço do pensar em conjunto, da correcta formulação comum das avaliações, a elaboração participada dos projectos pastorais.
Nada disto se improvisa.

Uma nova mentalidade da vida eclesial, que valoriza os recursos de todos e é fruto de uma pedagogia de comunhão atenta. O diálogo franco, a amizade serena e desinteressada, a obediência não sofrida, são factores constitutivos deste tirocínio; não se trata de uma forma moderna de democracia, mas de uma fraternidade reunida à volta da Eucaristia que simultaneamente a manifesta e gera.

Para nós padres 3 indicações:

• acompanhar a obra de discernimento com a condução e o encorajamento;
• alimentar continuamente vínculos e relações fraternas de estima, cordialidade, colaboração;
• vencer todas as tentações de divisão e de contraposição.

"Um dos objectivos centrais da missão é, com efeito, reunir o povo na escuta do Evangelho, na comunhão fraterna, na oração e na Eucaristia (RM 26).

A interacção, o trabalhar em equipa, são, antes de mais co-envolvimento de todas as componentes da comunidade eclesial.

Os leigos deixam de ser considerados meros receptores e são chamados a serem sujeitos activos da missão, em primeira pessoa. Antes de mais, com o testemunho de vida, mas também, e em igual medida, com o empenhamento no trabalho conjunto em comunidades-fermento, capazes de transformar as estruturas sociais que são obstáculo (reconhecido ou não) ao evangelho.

Por consequência, o presbítero não limita a própria acção à cura das "almas" individual, mas torna-se animador e promotor de comunidades vivas e missionárias, capazes não apenas de gestos considerados tradicionalmente como "religiosos", mas também de incidir nas estruturas da sociedade.

Do que se trata, fundamentalmente, é de uma atitude metodológica. Trabalho em equipa, antes de mais,
• como união e coordenação das diversas realidades existentes;
• depois, como correlação dos esforços em ordem à solução das problemáticas comuns, frequentemente superiores às forças de uma única paróquia e às energias de um só pastor;
• mas sobretudo como método de trabalho; o trabalho em grupo (equipa) é uma daquelas palavras de ordem mais ouvida e proclamada do que efectivamente realizada, pois, para trabalhar em comum não basta sentar-se à volta da mesma mesa; têm de se adquirir os estilos da participação e do diálogo que são a base imprescindível de qualquer trabalho comum.
Realidade dificílima, que só se alcança com muito estudo e ensaio e não se improvisa com retórica voluntarista.

Do que se trata é da atenção constante aos problemas na sua consistência efectiva. O pastor com as suas intuições e os seus contactos pessoais já não é capaz, em absoluto, de captar a realidade nas suas múltiplas facetas. Por conseguinte, deve convencer-se (ou ser convencido) da necessidade de pesquisas metódicas e rigorosas que lhe permitam uma visão realista e global. Este aspecto de globalidade precisa ser sublinhado, quer a propósito do presbítero, quer – e ainda mais – a propósito do bispo. Com efeito, é a eles que cabe a coordenação da acção pastoral aos diversos níveis.

P. Adelino Filipe Guarda

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"Sejamos sinceros: a capacidade de cultivar as vocações ao sacerdócio e à vida religiosa é um sinal da saúde de uma Igreja local. Não há espaço para alguma complacência a este respeito. Deus continua chamando os jovens, mas cabe a nós encorajar uma resposta generosa e livre a esse chamado. Por outro lado, nenhum de nós é capaz de dar esta graça por certa".

Resposta do Papa às perguntas dos bispos norte-americanos, no final do encontro no Santuário Nacional da Imaculada Conceição, em Washington, na tarde de quarta-feira 16Abr08

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