O padre educador e promotor da vida litúrgica da comunidade

Tags:Artigo
Categoria: Artigos/Conferências
Criado em 24-05-2010

Intervenção do Revº P. Doutor Carlos Cabecinhas, na Assembleia Diocesana do Clero, no dia 24 de Maio.

 

O Concílio Vaticano II veio recordar-nos que toda a acção litúrgica é "acção sagrada por excelência, cuja eficácia, com o mesmo título e no mesmo grau, não é igualada por nenhuma outra acção da Igreja" (SC 7). Como tal, em virtude dessa excelência e eficácia, "a Liturgia é simultaneamente a meta para a qual se encaminha a acção da Igreja e a fonte de onde promana toda a sua força" (SC 10). De modo muito especial, a Eucaristia está no centro da vida das comunidades cristãs.

Ora, nas comunidades cristãs, somos nós, padres, que maior responsabilidade temos na promoção da vida litúrgica, quer porque temos formação especificamente litúrgica, quer sobretudo porque, como presidentes das celebrações, condicionamos o modo de celebrar das comunidades. Além disso, em virtude da missão que nos foi confiada, assumimos a responsabilidade de, em comunhão com o bispo diocesano, dinamizarmos a vida litúrgica.

Voluntária ou involuntariamente, somos educadores do sentido litúrgico dos outros fiéis. A Instrução Sacramento da Redenção, de 2004, sublinha a nossa responsabilidade a este nível:

30. "Grande é o ministério «que na celebração eucarística têm principalmente os sacerdotes, a quem compete presidir in persona Christi (na pessoa do Cristo)" [...]

31. "Coerentemente com o que prometeram no rito da sagrada Ordenação e cada ano renovam na da Missa Crismal, os presbíteros presidam, «com piedade e fidelidade, à celebração dos mistérios de Cristo, especialmente o Sacrifício da Eucaristia e o sacramento da reconciliação». Não esvaziem o próprio ministério de seu significado profundo, deformando de maneira arbitrária a celebração litúrgica com mudanças, com mutilações ou com acréscimos." [...]

32. "Esforce-se o pároco para que a Santíssima Eucaristia seja o centro da comunidade paroquial de fiéis; trabalhe para que os fiéis se alimentem com a celebração piedosa dos sacramentos, de modo especial com a recepção frequente da Santíssima Eucaristia e da penitência; procure levar à oração [...] e à participação consciente e ativa na sagrada liturgia, de que o pároco deve ser o moderador na sua paróquia, sob a autoridade do Bispo diocesano. Embora seja oportuno que na preparação eficaz das celebrações litúrgicas, especialmente da santa Missa, ele seja coadjuvado por vários fiéis, não deve todavia de nenhum modo ceder-lhes as prerrogativas nas matérias que são próprias do seu ofício."

A nós, padres, compete ajudar os fiéis leigos a preparar as celebrações litúrgicas. Confiar-lhes simplesmente a preparação, sem os acompanharmos, é demitirmos-nos de os ajudar a progredir no sentido litúrgico.

A arte de celebrar
Celebrar é uma arte! Exige sensibilidade mas, sobretudo, preparação, trabalho, atenção. A "arte de celebrar", que não é sinónimo de arte litúrgica, é a expressão usada pelo Papa Bento XVI, na Exortação Apostólica Pós-Sinodal Sacramentum Caritatis, de 2007. Diz o Papa:

38. [...] "o primeiro modo de favorecer a participação do povo de Deus no rito sagrado é a condigna celebração do mesmo; a arte da celebração é a melhor condição para a participação activa. Aquela resulta da fiel obediência às normas litúrgicas na sua integridade, pois é precisamente este modo de celebrar que, há dois mil anos, garante a vida de fé de todos os crentes, chamados a viver a celebração enquanto povo de Deus, sacerdócio real, nação santa."

39. "Se é verdade que todo o povo de Deus participa na liturgia eucarística, uma função imprescindível, relativamente à correcta "arte da celebração" (ars celebrandi), compete todavia àqueles que receberam o sacramento da Ordem. Bispos, sacerdotes e diáconos, cada qual segundo o próprio grau, devem considerar a celebração como o seu dever principal." [...]

40. "Ao ressaltar a importância da arte da celebração, consequentemente põe-se em evidência o valor das normas litúrgicas. [...] A celebração eucarística é frutuosa quando os sacerdotes e os responsáveis da pastoral litúrgica se esforçam por dar a conhecer os livros litúrgicos em vigor e as respectivas normas, pondo em destaque as riquezas estupendas da Instrução Geral do Missal Romano e da Instrução das Leituras da Missa. Talvez se dê por adquirido, nas comunidades eclesiais, o seu conhecimento e devido apreço, mas frequentemente não é assim; na realidade, trata-se de textos onde estão contidas riquezas que guardam e exprimem a fé e o caminho do povo de Deus ao longo dos dois milénios da sua história. Igualmente importante para uma correcta arte da celebração é a atenção a todas as formas de linguagem previstas pela liturgia: palavra e canto, gestos e silêncios, movimento do corpo, cores litúrgicas dos paramentos. Com efeito, a liturgia, por sua natureza, possui uma tal variedade de níveis de comunicação que lhe permitem cativar o ser humano na sua totalidade. A simplicidade dos gestos e a sobriedade dos sinais, situados na ordem e nos momentos previstos, comunicam e cativam mais do que o artificialismo de adições inoportunas. A atenção e a obediência à estrutura própria do rito, ao mesmo tempo que exprimem a consciência do carácter de dom da Eucaristia, manifestam a vontade que o ministro tem de acolher, com dócil gratidão, esse dom inefável."

Esta "arte de celebrar" não se improvisa. Exige o empenhamento dos pastores, para poderem celebrar bem e ajudar os fiéis a bem celebrar.

Alguns aspectos concretos das nossas celebrações
Estas indicações representam para nós um desafio. Apresentam-se, pois, algumas concretizações que têm que ver com situações que dependem directamente de nós ou nas quais podemos – e devemos – ajudar os outros fiéis.

O único livro litúrgico que se leva processionalmente é o Evangeliário, porque objecto de especial veneração. Não tem sentido levar solene e precessionamente o livro da Oração Universal e menos ainda a agenda com as intenções da Missa... Já quanto ao Leccionário, o seu lugar é no ambão.

O acto penitencial, apresenta uma configuração que, com frequência, não é respeitada. Segundo a Instrução Geral do Missal Romano (IGMR), o acto penitencial "é feito por toda a comunidade com uma fórmula de confissão geral e termina com a absolvição do sacerdote (IGMR 51). O centro da celebração do perdão não é esta preparação penitencial, mas a celebração da Eucaristia como tal, como afirma o próprio Jesus Cristo: "Este é o cálice do Meu Sangue, o Sangue da nova e eterna Aliança, que será derramado por todos, para remissão dos pecados". "Ao domingo, principalmente no tempo pascal, em vez do costumado acto penitencial pode fazer-se, por vezes, a bênção e a aspersão da água em memória do baptismo" (IGMR 51). "Depois do acto penitencial, diz-se sempre o Senhor, tende piedade de nós (Kýrie, eléison), a não ser que já tenha sido incluído no acto penitencial" (IGMR 51). Trata-se de um modelo aclamativo litânico com uma invocação tripartida dirigida ao Senhor (Cristo), Kyrios, e não à Santíssima Trindade, como erroneamente às vezes se interpreta. Quando se acrescentam tropos penitenciais, o Senhor, tende piedade de nós substitui a confissão e passa a constituir o acto penitencial. Neste caso, são de evitar os discursos moralistas! Trata-se de nos reconhecermos pecadores, mas não de fazer uma confissão pública e detalhada das nossas faltas.

Na apresentação dos dons, não abusar da inserção de símbolos. Os símbolos fundamentais são sempre o pão e o vinho para a Eucaristia. São os únicos elementos necessários; todos os outros são dispensáveis! Com frequência, organiza-se uma procissão dos dons em que se pode encontrar de tudo um pouco, menos os únicos elementos que tinham de estar lá! Pão e vinho para a celebração. Não tem sentido levar um pão, que fica sobre o altar, mas que não tem qualquer relação com a celebração. O pão é aquele que vai ser consagrado. Um símbolo de um símbolo não faz sentido, mas é o que acontece quando se leva um pão caseiro para simbolizar o pão eucarístico... Se as partículas são pouco expressivas, porque muito estilizadas, mudem-se as partículas.

Outro hábito frequente, quando se pretende solenizar uma celebração, é multiplicar os símbolos. Mas como não são expressivos – dizem pouco ou mesmo nada – é preciso explicar o que são e porque os apresentamos. Se um símbolo precisa de ser explicado é porque não simboliza! E inflaciona-se a celebração com discursos tão inúteis como inadequados ao momento. Diz o papa Bento XVI, na Exortação Sacramento da caridade, n.47: "Este gesto não necessita de ser enfatizado com descabidas complicações para ser vivido no seu significado autêntico."

Se, excepcionalmente se pretender levar outros elementos além do pão e vinho para a Eucaristia, que sejam poucos e verdadeiros: levar ofertas que não se oferecem, não tem sentido; como não tem sentido oferecer a Deus a Sua Palavra (a Bíblia), os dons do Espírito Santo...

No momento depois da Comunhão, a assembleia é convidada a dar graças pelo dom da Eucaristia recebida em comunhão. É um momento que admite várias configuração (cf. IGMR 88):

- oração pessoal, em silêncio
- expressão comum de louvor, com um cântico
- oração pessoal, em silêncio, seguida de expressão comum de louvor, pelo canto

Tenha-se, porém, presente que o grande momento da acção de graças é a Oração eucarística! Por este motivo, o Directório para as Missas com crianças diz que, quando se pretende valorizar com as crianças a atitude de acção de graças, isso se pode fazer pondo as crianças a indicar os motivos pelos quais querem dar graças a Deus depois da oração sobre os dons e antes do prefácio (n. 22)! Nâo depois da comunhão! Textos e discursos neste momento são inadequados, porque fora do lugar.

Devemos ter sempre a preocupação com o equilíbrio do conjunto da celebração. Evitar multiplicar intervenções, explicações, avisos... Não temos de dizer tudo, nem de explicar tudo!

Conclusão: os desafios à nossa maneira de celebrar

As concretizações e exemplos apresentados são apenas uma amostra, mais ou menos aleatória, de aspectos que exigem a nossa atenção e o acompanhamento dos fiéis que, com boa vontade e recta intenção, preparam estes momentos e elementos das celebrações.

Concluo com dois desafios de um antropólogo francês (J.-Y. Hameline) ao nosso modo de celebrar1.

Menos símbolos, mas mais simbolização. Tendemos a multiplicar os símbolos, que passam a funcionar simplesmente como elementos de ornamentação visual, sem real capacidade de tocar os fiéis; multiplicamos os símbolos, mas eles são tão pouco expressivos que sentimos necessidade de os explicar detalhadamente, sem nos apercebermos que quando é necessário explicar um símbolo é porque ele não simboliza, não tem expressividade, é mudo e vazio. Em vez de somar símbolos aos símbolos que a liturgia já apresenta, o caminho seria de os valorizar, não de os multiplicar!

Menos discurso, mas mais actos de linguagem. A lei fundamental da liturgia não é dizer o que se faz, mas sim fazer o que se diz (L.-M. Chauvet)! Na liturgia, as palavras não são informação debitada para os ouvidos dos presentes: são acção, isto é, súplica, acção de graças, louvor... As palavras acompanham os gestos, esclarecem-lhe o sentido e realizam o que se diz: "eu te baptizo" não é uma informação que se dá, é um acto que se realiza. Tomar isto a sério implica, por exemplo, cuidar quer da qualidade do gesto, quer da adequação da entoação. Não se trata de teatralizar, mas de assumir e interiorizar.

Leiria, 24 de Maio de 2011.

P. Carlos Cabecinhas


 

1Cf. J.-Y. HAMELINE, «Observation sur nos manières de célébrer», in ID., Une poétique du rituel, Paris 1997, p. 44-45 [originalmente publicado em La Maison-Dieu n.º 192 (1992) 7-24].

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