Bênção do Centro de Interpretação da Batalha de Aljubarrota

Tags:Bênção, CIBA, Centro Interpretação Batalha Aljubarrota, Nun’Álvares, S. Nuno Álvares Pereira, Santo Condestável
Categoria: Artigos/Conferências
Criado em 11-11-2008

 

 

Revisitar a Figura de Nun’Álvares

 

† António Marto

Campo de S. Jorge

11 de Outubro de 2008

 

 

Saúdo com toda a deferência e cordialidade Sua Excelência, o Senhor Presidente da República e sua Exma. esposa, e estendo esta saudação a todos os ilustres convidados.

Saúdo e agradeço, de modo particular, ao Senhor Presidente da “Fundação Batalha de Aljubarrota” o amável convite para proceder à bênção deste Centro de Interpretação. A seu insistente pedido, aceitei fazer, neste momento, uma breve evocação da exemplaridade cristã do Patrono espiritual da Fundação e herói da batalha, D. Nuno Álvares Pereira. Interpretei o pedido como um convite a revisitar a antiga e nobre figura de Nun’Álvares, por vezes tão maltratada.

 

Como todas as grandes figuras da história, também esta está sujeita ao conflito de interpretações.

O que está em causa é a interpretação da figura do Condestável do Reino, militar distinto na campanha da consolidação da independência nacional depois da crise de 1383-85, considerado fundador da Real Casa de Bragança, proprietário de boa parte do território nacional que, a certa altura da vida, pensa abandonar a pátria e, na impossibilidade disso, resolve – à semelhança de Francisco de Assis – doar grande parte da fortuna aos pobres e a mosteiros e ingressar na Ordem dos Carmelitas, como simples irmão leigo. A sua caridade e generosidade sem limites para com os pobres, criando casas de abrigo para doentes, órfãos e viúvas, a sua benevolência, misericórdia e protecção para com os vencidos nas batalhas, granjearam-lhe já em vida o epíteto de “O Santo Condestável”. O seu amor ao próximo não conhecia distinção de raças ou crenças, acolhendo nas suas terras mouros ou judeus que o chamavam de “pai” por lhes ter construído mesquitas e sinagogas.

Neste conflito de interpretações há, segundo um interessante estudo de D. António Ferreira Gomes, bispo do Porto, duas versões inaceitáveis, uma antiga e uma moderna.

A primeira delas é de Luís de Camões que o vê como um militar violento (“A mão na espada, irado e não facundo/ Ameaçando a terra, o mar e mundo”), à imagem do Orlando Furioso (“D. Nuno Álvares digo, verdadeiro açoute dos soberbos castelhanos, como já o fero Huno o foi primeiro…”). Esta é uma interpretação belicista, própria de um espírito medieval de cruzada, completamente inexacta e desactualizada.

A segunda é a de Júlio Dantas (1907 e 1913). Trata-se de uma interpretação que oscila entre o jacobinismo republicano, a medicina e a psicologia positivista. Faz de Nun’Álvares uma espécie de D. Sebastião, avant la lettre, um homem movido pela neurose da violência, um doente psíquico, possuído por estranhas ideias sobre a virgindade, portador de uma hereditariedade patológica (com um bispo de Braga de permeio!) que o autor vai rebuscar, por duvidosos métodos historiográficos, até à 5ª geração! Esta interpretação é proposta precisamente no momento em que acontecia o processo de beatificação do Condestável, para a ridicularizar. O texto de Júlio Dantas chama-se significativamente “Libelo do Cardeal Diabo”.

Ambas as interpretações são completamente erróneas e inaceitáveis para o Bispo Ferreira Gomes. Ele propõe a sua própria interpretação, no contexto da reflexão sobre a tradição portuguesa antiga a respeito dos “direitos humanos”.

Começa por revisitar a “Crónica de D. João I” de Fernão Lopes que mostra Nun’Álvares como um homem mesurado, sensato na palavra e na presença, inteligente, militar eficaz, mas nunca gratuitamente violento. Como homem do seu tempo, era muito interessado por romances de cavalaria (“Távola Redonda”), de origem britânica. Mas não leria somente isso; eventualmente terá lido também as teorias de João de Salisbúria sobre o regime do príncipe e a consolidação das liberdades contidas na “Magna Charta” de 1215, sobre os direitos dos cidadãos. Esta índole e esta formação são decisivas para explicar a sua história posterior e engrandecem a sua figura humana e cristã.

Porque pensou o Condestável deixar o Reino (como fizeram os Príncipes D. Fernando e D. Pedro, filhos de D. João I), uma vez consolidada a paz e a independência? Na interpretação de D. António, é por duas razões. Primeiro, porque estava em desacordo com a posição da velha nobreza (para reconstituir a velha ordem feudal), que não compreendeu o sentido cívico-burguês da revolução de 1383/85. Em segundo lugar, porque a política D. João I se encaminhava no sentido de centralização do poder, anulando as liberdades municipais dos Burgos. D. António dá o exemplo do Porto, cidade cujo senhorio foi, por essa altura, comprado pelo rei ao bispo. A tese é que as liberdades das cidades medievais (liberdades de cidadania) e o seu desenvolvimento burguês económico se processam mais facilmente sob a inspiração cristã da Igreja do que sob a ordem do centralismo real.

Uma vez que o rei se opôs à partida do Condestável do Reino, ele escolheu a forma de recusa mais radical (em vista dos desenvolvimentos da história com que não estaria de acordo) e recolheu-se ao claustro carmelita, despojando-se dos seus bens, numa entrega total a Deus.

É inegável a exemplaridade cristã da sua vida, a sua exemplar santidade de vida reconhecida pela Igreja e que nos interpela, sobremaneira, na momento actual: como apelo a uma cidadania exemplar animada pelas virtudes evangélicas; a um sentido nobre da política alicerçada nos valores transcendentes do humanismo cristão para “mais e melhor democracia” não só como regime formal mas sobretudo como virtude e cultura da dignidade da pessoa e dos direitos humanos; e à escuta do clamor dos pobres e dos mais desfavorecidos, as primeiras vítimas da actual crise do sistema financeiro e da sua avidez do lucro imediato. Num país onde o fosso entre ricos e pobres é um dos maiores da Europa é necessário lembrar a indiscutível frase de Kant e repetida pelo cardeal Cardijn: “as coisas têm preço; os homens têm dignidade”!

Oxalá a canonização próxima de D. Nun’Álvares possa trazer uma nova linfa vital para uma mais digna, justa e saudável vida cívica, social e política à sua e nossa amada Pátria!

 

Campo de S. Jorge, 11 de Outubro de 2008  

† António Marto, Bispo de Leiria- Fátima

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Entrevista de D. António Marto à Agência Ecclesia

Prestes a receber o Papa Francisco em Fátima, D. António Marto fala da visita, do Centenário das Aparições e da Mensagem de Fátima.



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