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48 - D. António Antunes – o informador privilegiado

Categoria: Notícias
Criado em 28-11-2018
D. António Antunes, aquando da sua última visita à Santa Sé, em 1947.

Natural da freguesia da Barreira (Leiria), D. António Antunes tornou-se bispo auxiliar de Coimbra a partir de finais de 1919 e coadjutor a partir de 1924, assumindo as funções de bispo residencial daquela diocese em 1936, sendo o 59.º bispo de Coimbra e o 24.º Conde de Arganil. 

Antes, porém, como informador bem documentado, ele esteve na mira da Cúria romana, na sequência do processo de restauração da Diocese de Leiria, e na iminência de ser o 1.º bispo da Diocese de Leiria restaurada, o que só recentemente se soube.


 

D. António Antunes nasceu na Cumeira, freguesia da Barreira, a 18 de Novembro de 1875, filho de José Antunes, natural da Cumeira, e de Josefa de Jesus, nascida nos Galhetes, freguesia de Cortes, onde casaram.

Aos 11 anos entrou no Seminário de Leiria, que a esse tempo funcionava como anexo do de Coimbra, dada a extinção da Diocese de Leiria em 1881. Em 11 de Outubro de 1893 seguiu para o Seminário de Coimbra, de maneira a completar o Curso Teológico. Em 21 de Dezembro de 1895, recebeu a prima tonsura e ordens menores, o subdiaconado em 19 de Dezembro de 1896 e o diaconado em 18 de Dezembro de 1897. Findo o curso teológico, foi ordenado sacerdote a 17 de Julho de 1898. Uma semana mais tarde, celebrou a sua primeira missa na Barreira.

Após a sua ordenação sacerdotal, o Padre António Antunes foi designado Prefeito dos pensionistas da segunda Prefeitura. No entanto, o seu Bispo, reconhecendo os dotes intelectuais do jovem presbítero, enviou-o para Roma, em 1899, para frequentar a Pontifícia Universidade Gregoriana.

A 30 de Janeiro de 1903, terminou o doutoramento em Teologia, a par do Curso de Filosofia na Academia Romana de São Tomás de Aquino, onde defendeu tese. O jovem António Antunes figura entre os alunos que inauguraram o Colégio Português em Roma.

Regressado a Portugal, foi designado professor do Seminário de Coimbra onde leccionou, ao longo dos anos, Teologia Fundamental e Dogmática Especial, a par de outras disciplinas do curso liceal, tendo assumido as funções de Vice-Reitor daquele Seminário em 1915. Neste mesmo ano, em 31 de Março, foi investido como Cónego Capitular da Sé de Coimbra, por nomeação do bispo D. Manuel Luís Coelho da Silva.

No mês seguinte, foi publicado o primeiro número do Boletim da Diocese de Coimbra, que ostentava o nome de D. António Antunes como director e cuja função conservou nos anos seguintes, até à sua nomeação como Bispo auxiliar de Coimbra, em 12 de Setembro de 1919, pelo Papa Bento XV, o mesmo que decretara a restauração da Diocese de Leiria em 1918. Foi sagrado bispo em 27 de Dezembro de 1919, na Sé Nova de Coimbra. Por Decreto da S. Congregação Consistorial de 13 de Junho de 1924, publicado no órgão oficial da Santa Sé de 1 de Setembro, o Papa Pio XI nomeou-o Coadjutor e futuro sucessor de D. Manuel Luís Coelho da Silva.

O Arcipreste de Figueiró dos Vinhos, P. António J. d’Almeida Inglês, refere um episódio que, na sua opinião, evidenciava as virtualidades prelado. Narra que certo dia se estabeleceu um diálogo entre a Comissão Promotora da Restauração da Diocese de Leiria e o Bispo de Coimbra, D. Manuel Coelho da Silva.

Disse a Comissão Promotora:
– «Vimos solicitar respeitosamente de V. Ex.ª Reverendíssima autorização e auxílio para pedirmos à Santa Sé a restauração da nossa extinta diocese de Leiria, parte dela incardinada nesta diocese de Coimbra.»

Ao que o Prelado de Coimbra respondeu:
– «Vasta é esta diocese, e, quanto menos for, menos pesada será a nossa Cruz episcopal. Acho justa a vossa pretensão e não serei eu que a ela me oponha. Contem, pois, com a minha boa vontade.» O prelado questionou ainda: – «Então quem pensam seja agora o primeiro bispo da diocese de Leiria?»

– «Nós não vamos pedir Bispo, mas sim a restauração do Bispado, mas já que V. Ex.ª Reverendíssima nisso nos falou, seria muito para desejar que o novo Bispo da diocese restaurada fosse um filho muito ilustre da nova diocese, e seja-nos permitido lembrar o nome do Ex.mo Vice-Reitor deste Seminário, o Sr. Dr. António Antunes».

O Bispo de Coimbra tentou então dissuadi-los dessa pretensão, porque já tinha em mente fazer dele o seu Bispo Auxiliar e futuro sucessor.

Mas a verdade é que não era só a Comissão Promotora da Restauração da Diocese de Leiria que pensava em D. António Antunes. Foi publicado recentemente o livro Fátima – Das visões dos pastorinhos à visão cristã (a esfera dos livros, 2017), da autoria do Bispo D. Carlos A. Moreira de Azevedo. Graças à consulta de material do Arquivo Secreto do Vaticano, o autor revela neste livro o processo de escolha do primeiro bispo da Diocese de Leiria restaurada (17 de Janeiro de 1918), depois de ter sido extinta em 1881. E traz à luz novos dados sobre a política portuguesa entre 1917 e 1930.

Além dos videntes, o autor fala também de personagens essenciais a Fátima, como o Padre Manuel Formigão e o Bispo D. José Alves Correia da Silva, acabando este último por ser o clérigo eleito para assumir a Diocese restaurada. Mas o processo não foi pacífico. E uma das personalidades que, ao nível da Igreja portuguesa e do Vaticano, foi insistentemente citada para Bispo da Diocese foi justamente D. António Antunes. Escreve D. Carlos de Azevedo que, por esse tempo, «o Cónego António Antunes, sendo natural da diocese de Leiria (freguesia da Barreira), é vice-reitor do Seminário de Coimbra e dispõe-se a colaborar na recolha de informação, necessária ao processo de restauração», porventura desconhecendo que o seu nome estava na lista. Em todo o caso, tendo a decisão de restaurar a Diocese de Leiria sido tomada a 30 de Abril de 1917 (antes dos acontecimentos de Fátima, que só começaram a 13 de Maio), a escolha do Bispo arrastou-se por dois anos e recaiu, como referimos, em D. José Alves Correia da Silva que só tomou posse a 5 de Agosto de 1920, muito depois da publicação, pelo Papa Bento XV, do Breve de restauração da Diocese Quo vehementius, de 17 de Janeiro de 1918.

Em 17 de Junho de 1928, D. António Antunes foi consagrante do cardeal Patriarca de Lisboa, D. Manuel Gonçalves Cerejeira.

A 1 de Março de 1936, com a morte de D. Manuel Luís Coelho da Silva, o abnegado Bispo Auxiliar e Coadjutor ascendeu à condição de Bispo Residencial.


 

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Bênção dos Bispos na peregrinação a Fátima (12 e 13 de Julho de 1933). Da esq. para a dir.: D. José Alves Correia da Silva (Bispo de Leiria), D. Manuel Luís Coelho da Silva (Bispo de Coimbra) e D. António Antunes (Bispo Auxiliar de Coimbra).

 


Entre as prioridades de D. António Antunes, estavam os Seminários Diocesanos: a disciplina, o espírito de piedade, a instrução intelectual, ética e religiosa dos seminaristas e o seu bem-estar. Foram amplamente beneficiados com obras os três edifícios do Seminário (Casa Velha, Nova e Novíssima). Foi da sua responsabilidade a edificação da Casa dos Exercícios Espirituais na Quinta dos Lóios, que fora pertença dos Frades Lóios ou de S. João Evangelista, e que, a partir de Janeiro de 1937, com o nome de Casa de Santo António, proporcionou a leigos e sacerdotes acções de formação doutrinária e pastoral outrora feitas no Seminário.

Foi também da sua responsabilidade a reconstrução da casa dos Estudantes, o Centro de Democracia Cristã, habitualmente designado por C.A.D.C., autêntico viveiro de homens influentes na política, nas letras e nas ciências.

A Recristianização das festas populares tradicionais e outras estava integrada no seu programa de renovação espiritual da diocese.

Como bom filho da Diocese de Leiria e devoto de Fátima, promoveu várias iniciativas, entre elas, no dia 11 de Maio de 1942, uma peregrinação diocesana a Fátima.

E, depois de ter celebrado, a 27 de Dezembro de 1944, as suas Bodas de Prata episcopais, recebeu em Coimbra, a 8 de Fevereiro de 1945, o fundador da Opus Dei, Josemaria Escrivá de Balaguer.

Devido à deterioração da sua saúde, em 1948, começou a ter que locomover-se em cadeira de rodas, quando se deslocava pelos corredores do Seminário. Em Janeiro deste ano, a doença, que o limitava desde Setembro do ano anterior, agudizou-se e levou-o à cama. Em 17 de Julho de 1948, D. António Antunes ainda celebrou as suas Bodas de Ouro sacerdotais. Mas, no dia 20 de Julho de 1948, com a idade de 72 anos, o venerando barreirense, Bispo-Conde de Coimbra, cedeu à doença e expirou.

A biografia deste prelado leiriense está plasmada no livro D. António Antunes, Bispo de Coimbra, filho ilustre da freguesia da Barreira – Leiria (1875-1948), de Pedro Moniz (Leiria: Textiverso e autor, Mar./2011, 142 pp.)

D. António Antunes foi, pois, uma peça primordial para o processo de restauração da Diocese de Leiria, assumindo-se como um informador privilegiado junto do Santa Sé e contribuindo, de forma categórica, para a legitimação dos anseios de quantos, em Leiria, pugnavam por uma Diocese restaurada.

Elementos recolhidos por Carlos Fernandes

 


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