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Os retiros / encontros dos “peregrinos privilegiados” de Fátima

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Criado em 12-04-2017
©LMFerraz

Prestes a entrar na celebração do solene Tríduo da Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo, fomos ao encontro de quem, hoje, vive com a marca do sofrimento e procura encontrar respostas e sentido para a vida na doença. Os retiros de doentes organizados pelo Movimento da Mensagem de Fátima procuram ser, sobretudo, um encontro de descoberta do valor e missão de cada pessoa, da “vida como dom até ao fim” e de Deus como fonte de graça.

 

Tudo começou nos primeiros diálogos entre Lúcia e Nossa Senhora. Os doentes requisitavam aos videntes os seus pedidos de saúde, Lúcia transmitia essas preces a Nossa Senhora e ela respondia “uns sim, outros não”, frequentemente com a indicação do remédio “se orarem muito e se converterem”. Assim, mesmo não sendo o específico da Mensagem de Fátima, centrada mais na saúde espiritual, a questão da doença física está presente desde o início. É uma das primeiras preocupações das pessoas quando elevam a sua oração a Deus e, também neste caso da mediação de Maria na Cova da Iria, não deixam de ter resposta.

É, por isso, normal que tenha existido “desde sempre uma atenção especial do Santuário de Fátima pelos doentes”, como prova o primeiro edifício construído em anexo à Capelinha das Aparições, “um pavilhão de madeira destinado a acolher e tratar os peregrinos com doença ou alguma deficiência”. Quem o recorda é o padre Manuel Antunes, diretor do Serviço de Doentes do Santuário de Fátima e coordenador dos retiros a eles destinados há cerca de três décadas. E é ele quem nos resume a história desta iniciativa e explica em que consiste atualmente.

Retiros de sucesso

Então, como tudo começou? O padre Antunes entrou no Santuário como capelão em 1976 e logo o então reitor, padre Luciano Guerra, lhe pediu que assumisse “a missão apostólica da pastoral da saúde”, nomeadamente, através da organização de retiros para doentes e deficientes físicos. Não tardou a realizar o primeiro desses retiros, a 10 de maio desse ano, com 42 participantes. “As pessoas gostaram tanto que tivemos de realizar mais cinco retiros ainda nesse ano”, recorda, e o “interesse e entusiasmo dos doentes e seus familiares” levou ao agendamento de 12 retiros para 1977.

Como era preciso encontrar uma organização de suporte a um serviço mais programado, a tarefa passou para o Movimento da Mensagem de Fátima (MMF), que começava a ter estrutura definida em todas as dioceses do País. O padre Antunes, que é também assistente nacional do Movimento, lembra que foram essas equipas diocesanas que começaram então a “organizar e trazer os grupos de doentes, bem como voluntários para os acompanhar, entre os quais, pessoas formadas em medicina e enfermagem.

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Santuário assume custos

Desde a primeira hora, o Santuário de Fátima assume todos os custos com a estadia e alimentação dos doentes e das equipas que os acompanham. Esse é um dos aspetos que realça a equipa do MMF da Diocese de Viana do Castelo, que acompanhava o grupo em retiro na ocasião da nossa visita, entre os dias 7 e 9 de abril. “Fala-se muito nos milhões em esmolas e das despesas em obras, que também são necessárias, mas poucas pessoas conhecem o investimento feito em iniciativas como esta ou como as férias pagas durante o verão deficientes e seus pais ou outros familiares cuidadores”, sublinha um dos voluntários.

O padre Antunes frisa também esse aspeto, apontando também a dedicação do Santuário em toda a organização logística e na garantia de uma equipa permanente de padres, médicos, enfermeiros, administrativos e outros funcionários de apoio aos cerca de 2.000 doentes que passam pelos 20 retiros organizados atualmente em cada ano, vindos de todas as dioceses, incluindo das ilhas. É uma das provas de que “estes são peregrinos privilegiados” de Nossa Senhora de Fátima.

 

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Como é o retiro?

Na tarde em que visitámos o retiro, o grupo de Viana do Castelo estava em plenário a ouvir uma formação do padre Francisco Pereira, capelão do Santuário, sobre o sacramento do Reconciliação. Depois estiveram em grupos a refletir sobre como fazer um bom “exame de consciência”. No lanche que se seguiu, a conversa fluía tranquila, mas variada, sobre os assuntos da atualidade e das suas vidas. Numa das mesas, falava-se da visita aos Valinhos que todos tinham feito durante essa manhã.

“Há tempo para tudo”, explica o padre Antunes, confessando que preferia o nome “encontro de espiritualidade” do que o de “retiro”. Não só porque “é mais adequado à realidade”, mas também porque “a palavra retiro poderá ‘assustar’ algumas pessoas menos habituadas aos ambientes eclesiais”.

De facto, estes três dias são, sobretudo de promoção do encontro, “em primeiro lugar, consigo mesmos”. Apesar de haver adaptações conforme a origem, o nível espiritual e até cultural de cada grupo, há um programa geral que é proposto como base. Num primeiro dia, promove-se o acolhimento e a ambientação das pessoas, bem como o conhecimento mútuo. No segundo, procura-se “levar os participantes à reflexão e descoberta da sua pessoa e da vocação que Deus lhe reserva na situação concreta em que se encontra”. No terceiro, desenvolve-se a dimensão apostólica de participação ativa na vida das suas comunidades, mesmo os que não têm mobilidade, “pois todos têm um papel a desempenhar, como aponta o Vaticano II na expressão de ‘corpo místico de Cristo’ para designar a Igreja”. E um dos objetivos é que a experiência seja prolongada numa inserção mais plena e efetiva na comunidade cristã de origem.

Há também o encontro com Deus, em momentos fortes de oração, e o encontro com os lugares mais significativos de Fátima, como a Capelinha das Aparições, as basílicas, os túmulos dos videntes e a zona dos Valinhos. “´E aqui que se realiza a Via-Sacra, um dos momentos centrais e mais marcantes do retiro”, considera o padre Antunes.

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Quem participa?

O público-alvo são os doentes físicos, em especial, do foro oncológico e cardíaco, pois são os mais recetivos à mensagem de esperança e confiança que procura transmitir-se. Há um processo de convite e “triagem” nas dioceses, procurando-se que sejam, pelo menos, 50% os que vêm pela primeira vez, já que “há uma enorme procura de quem já fez e quer repetir, dificultando que outros possam usufruir desta ajuda”.

Vêm de todos os meios e níveis de formação humana e espiritual. Os que participam pela primeira vez são confrontados com a novidade e “nem sempre é fácil, até do ponto de vista do comportamento em grupo, cumprimento de horários, hábitos alimentares, etc.”, refere o padre Antunes. Mas, “depois, dão uma volta completa, amadurecem e, no final, são muito interessantes os testemunhos de terem encontrado entusiasmo, alegria, disponibilidade para aceitar a cruz e o desejo de quererem ficar mais tempo ou voltar”.

Este retiro não está direcionado para portadores de deficiência mental, que implicam outro tipo de linguagens e cuidados. No entanto, “aparecem cada vez mais casos de problemas do foro psicológico, como depressões, que exigem maior atenção, tempo de acolhimento e escuta, cuidado com o que se diz”.

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A vida é dom até ao fim

“O grande objetivo destes encontros é dizer ao doente que é pessoa, com direitos, deveres e lugar na sociedade, independentemente da gravidade ou limitação causada pela sua doença”, resume o padre Antunes. “Muita gente sente-se inútil, sem sentido para continuar a caminhada, e é preciso entender que a vida é um dom até ao fim”.

Em segundo lugar, “dizer ao doente que é cristão, filho especialmente amado por Deus, como mostrou Jesus no Evangelho e lembrou Nossa Senhora em Fátima”. Se for preciso apontar um exemplo de quem percebeu isto bem, “é ver a vida da Jacinta e os sacrifícios que oferecia pela conversão dos pecadores e a cura dos doentes”.

“Levar esta mensagem é mais importante do que alcançar um milagre de cura, pois a saúde fundamental é a espiritual e foi essa que Nossa Senhora veio aqui oferecer”, conclui o responsável dos retiros de doentes. A esse propósito, recorda o caso excecional de Maria Emília, a miraculada cuja cura serviu de base à beatificação dos dois irmãos Pastorinhos, pois “também ela passou por estes retiros de doentes, inerte numa maca”. Mas “isso é uma exceção e não a norma”.

E com isto voltámos aos Pastorinhos e a Nossa Senhora, onde tudo começou.

Da Diocese de Leiria-Fátima

Atualmente, faz-se um retiro anual da Diocese de Leiria-Fátima, mas já houve mais. “É preciso investir na maior organização a nível paroquial, convidando e acompanhando os doentes, para que haja maior procura”, defende o padre Manuel Antunes. Ainda assim, reconhece que “o Movimento da Mensagem de Fátima tem crescido na Diocese, muito graças ao incentivo dado pelo Bispo diocesano na sua carta pastoral para o corrente biénio, onde determina um maior envolvimento das paróquias com este movimento eclesial”. Nota-se que “vários párocos mostram maior sensibilidade e abertura” e o Secretariado Nacional está a “procurar aproveitar esse dinamismo para fazer crescer os grupos paroquiais”.

  

O médico de serviço

Neste retiro e em cerca de outra dezena deles em cada ano, podemos encontrar Silvino Fernandes como “médico de serviço”. Há cerca de uma década que começou a fazer este voluntariado e, nos últimos três anos, a ele se dedica quase exclusivamente. “São um bálsamo para quem sofre e, por vezes, não sabe como valorizar o seu sofrimento”, considera o clínico agora aposentado, confessando que os retiros também lhe fazem bem. “Sinto-me cheio e profundamente feliz por acompanhar e verificar a evolução dos doentes, alguns deles cheios de medicamentos, tristes e angustiados, e a saírem alegres, confiantes, com sentido e vontade de viver”.

Por vezes, “o que lhes falta é uma conversa amiga e até uma ajuda para a vida do dia a dia, para corrigirem maus hábitos alimentares ou de higiene, criarem rotinas saudáveis de ocupação do tempo, uma aprendizagem até de civismo, que os ajuda a verem a vida com outros olhos”.

Assim, este é um trabalho “em que vemos que somos úteis e em que se vê o resultado da nossa ação”, conclui o “doutor Silvino”, como é tratado por todos, concordando com o padre Antunes em que a designação para estes retiros deveria ser, afinal, a de “encontros”.

 

Testemunhos

Na nossa breve passagem pelo retiro em curso por estes dias, falámos com alguns participantes vindos da Diocese de Viana do Castelo, curiosamente, todos eles “repetentes” na experiência.

2017-04-12 doentes5aMaria de Lourdes Sousa e Francisco Cunha, de 72 e 74 anos, são um casal emigrante em França há mais de cinco décadas. Foram poucos os dias que vieram a casa e até estão lá com obras, “mas assim que surgiu a oportunidade, deixámos tudo e viemos”. Tal como na primeira vez, sentem-se “aliviados e alegres” e sente que o retiro os ajuda a “regressar com mais alegria à vida do dia a dia”. Sobretudo ele, que já viveu várias situações dramáticas, considera-se “um miraculado” por ter escapado a todas as contrariedades, entre doenças e acidentes. A “espiritualidade da doença” que aqui bebem é importante, mas são os “momentos ricos de oração” que mais apreciam e onde encontram “a paz de Nossa Senhora que permite continuar a sorrir”.

 

2017-04-12 doentes5bEngrácia Lima tem apenas 61 anos, mas as salas de médicos e hospitais não têm segredos para ela, desde a juventude. Solteira por opção, dedica-se à catequese, ao grupo coral e a tudo o que pode fazer na sua paróquia. Foi uma colega catequista que a inscreveu da primeira vez, há dois anos. “Senti a paz, a tranquilidade, a experiência de que precisava para aceitar melhor as minhas maleitas”. Adora cantar e aproveita a igreja, os casamentos, batizados e todas as ocasiões para o fazer. Por isso, “ter tido a oportunidade de cantar o Ave Maria de Schubert na Capelinha, diante de Nossa Senhora, foi um sentimento que nunca esquecerei e que me deu anos de vida”. Este ano, voltou a inscrever-se para acompanhar a colega que a enviou da primeira vez. Infelizmente, foi a ela que uma doença grave atingiu nos últimos tempos, de tal forma que nem acabou por nem poder vir. “É uma pessoa nova, com filhos pequenos, e estou a sofrer mais por ela do que por mim; foi por ela que vim e já me ofereci a Nossa Senhora para aceitar a troca dessa cruz”.

 

2017-04-12 doentes5cErmelinda de Andrade, de 81 anos, e Maria Alice Silva, de 45, andam de braço dado, como se fossem mãe a filha da instituição que ambas frequentam. Une-as a doença e o sorriso com que pedem uma foto, em troca do testemunho: “Isto é uma maravilha, o ambiente, as pessoas que nos tratam, as palestras que nos fazem, as celebrações em que participamos”. De repente, num ambiente de retiro de doentes, tem-se a sensação de que ali estão todos saudáveis.

Luís Miguel Ferraz | Presente Leiria-Fátima

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